29 de dez de 2008

Muito barulho por nada IV

 Segunda-feira, 01.12.08 - Comandos em ação

 

comandos[1] Às 08H45M entrei no Gabinete Presidencial, onde encontrei o Presidente Juvenil, que narrava ao líder do PSDB, Deputado José Megale, as dificuldades em contornar a crise que se fizera com a posição intransigente da Governadora.

 

Não li na expressão do Deputado Megale qualquer intenção de recuar a sua bancada da 1ª vice-presidência.

 

O Presidente da Assembléia revelou-lhe que a Governadora não mais vetava o PSDB e já os aceitava na 2ª vice-presidência. O Deputado Megale manteve-se impassível: empertigou-se na poltrona e sacramentou que o PSDB teria a 1ª vice-presidência ou não participaria da mesa.

 

Apelei ao Deputado Megale: a Governadora apenas respondia ao PSDB o tratamento oferecido ao PT durante todo o período em que aquele reinara, quando este nunca participou da mesa diretora da Assembléia Legislativa.

 

O Deputado Megale respondeu que a Governadora acertara no fato, mas, carecia de razão no argumento: o PT nunca participara da mesa porque sempre fizera a opção partidária de ficar fora dela, destarte sempre tenha sido convidado a fazê-lo por todos os presidentes que por lá passaram.

 

O Deputado Juvenil tirou do seu sabugo de milho o último caroço: informou ao Deputado Megale que, caso o PSDB recuasse para a 2ª vice-presidência a Governadora pagaria todas as emendas parlamentares pendentes da bancada.

 

Eu não achei prudente lançar aquele dote nas circunstâncias em que a crise se fazia, mas, o Deputado Juvenil resolveu usá-lo.

 

O Deputado Ferrari entrava no Gabinete no momento em que o Deputado Megale refutava a oferta do Tesouro Estadual: o PSDB não pretendia fazer um movimento de deslocamento por pagamento de emendas. O Deputado Megale ainda desdenhou da oferta, ao disparar que o Governo não costumava cumprir tal comprometimento.

 

O Deputado Ferrari apelou ao PSDB para que recuasse, pois estava em suas mãos a solução do impasse. O Deputado Megale não cedeu.

 

O PMDB envolvera-se entre duas vontades: a vontade do Governo de arrancar-nos de um suposto alinhamento com o PSDB, sob pena de rompimento, e a vontade do PSDB de que a operação do Governo falisse para que o rompimento houvesse e o alinhamento com eles, de fato, ocorresse.

 

A ânsia por notícias foi fazendo os deputados abandonarem o plenário em busca do Gabinete da Presidência. Eram 09H30M quando a mesa de reuniões do Gabinete estava posta com a maioria dos líderes, e mais alguns deputados.

 

Pediu-me, o Presidente Juvenil, para explicar o que ocorrera desde a sexta-feira, o que fiz.

 

Ao fim da prosa, o Deputado Seffer, líder do DEM, argumentou que tudo se resolveria com a simples atitude de afastar o PSDB da 1ª vice-presidência, e instou-me a explicar o porquê de o PMDB já não ter feito isto.

 

Respondi que o PMDB não tornaria sem efeito o convite feito ao PSDB, pois a solidez da reeleição do Presidente fora alcançada exatamente pela conquista deste.

 

Se abríssemos mão dos nove votos do PSDB, a chapa correria o risco de esfacelar-se e, em véspera da eleição, poderíamos ter que, à mercê do humor do Governo, realinhar a formação que houvéramos logrado alcançar de candidatura única.

 

Além do mais, tínhamos razão para intuir que o Governo gestava outra chapa para entestar a nossa, portanto, em o PSDB querendo recuar, seríamos gratos, mas, não os afastaríamos unilateralmente, sob pena de estarmos dando um tiro no próprio pé.

 

Meu argumento final foi ensaiar que, caso o PSDB fosse afastado, bastaria o realinhamento inicial deste com o G8 e o PTB para que a nossa chapa estivesse em perigo real.

 

O Deputado Juvenil manifestou a vontade de saber se a posição dos deputados presentes continuaria a mesma, caso o Palácio dos Despachos marchasse com uma chapa em seu desfavor.

 

O primeiro a se manifestar foi o líder do PRB, Deputado Roberto Santos, membro do G8, afirmando que, destarte as investidas do Governo, a palavra dada ao grupo estava mantida: votaria no Deputado Juvenil, mas, advertiu, se retiraria do grupo logo após a eleição da mesa.

 

O líder do PSB, Deputado Cássio Andrade, usou da palavra em seguida, confirmando que marcharia com a nossa chapa e, inclusive já teria dito isto à Governadora.

 

O Deputado Junior Hage, acompanhou as posições dantes referidas.

 

O Deputado Seffer afirmou que o G8 já houvera perfilado com o Presidente Juvenil, e ele não desalinharia da formação, contudo, era favorável a uma saída para o impasse que contemplasse o Governo, e, novamente, instigou o PMDB a remover o PSDB da posição dantes escalada.

 

Repeti que o PMDB não tinha a menor intenção de fazer aquilo unilateralmente. Para reforçar a nossa posição disparei que ninguém mais que eu, e o próprio PMDB, desejava uma solução que não levasse à ruptura, pois, no rompimento, o partido teria a maior perda: o seu líder, que era eu mesmo, seria ferido de morte.

 

Brinquei com a conjuntura que a gravidade embalava: “foi bom estar com vocês, sentirei saudades, mas, em o Governo rompendo com o PMDB, terei que deixar o Palácio da Cabanagem. Não será isto, todavia, que me fará desconvidar o PSDB, que nos empenhou apoio em primeira hora.”

 

Fez-se silêncio no Gabinete. O Deputado Marcio Miranda, tomou a palavra, reforçando, em um discurso firme, a posição do G8 em não recuar, mesmo diante de ofertas do Palácio dos Despachos.

 

Os deputados Adamor Aires e João Salame, ratificaram a posição do Deputado Marcio Miranda: o G8 já tinha empenhado a palavra ao Deputado Juvenil e nada os faria mudar de posição.

 

Quando ficamos a sós, eu e o Presidente Juvenil, pus-lhe a mão no ombro e admoestei-o a saber que, em havendo um embate com o Governo, defecções haveriam de alguns que acabavam de lhe emprestar suporte.

 

Afirmei-lhe que a firmeza do G8 surpreendera-me positivamente, à exceção do Deputado Seffer, que, ao meu ver, tendia a influir o grupo em favor do Governo.

 

O Presidente Juvenil aquiesceu preocupado. Respirou. O Palácio da Cabanagem era mira da artilharia da Governadora.

 

Por volta de 13H:50M fui informado de que o Governo transferira o seu palco de operações para o Centro Integrado de Governo, um centro de inteligência operacional do Estado, estrategicamente localizado em duas frentes urbanas: a Avenida Nazaré e a Governador José Malcher.

 

Às 15H00M estávamos no Diário do Pará, conferindo as informações que nos chegavam sobre o CIG.

 

A todo o momento a nossa lista aumentava ou diminuía, conforme emprestávamos veracidade ou não às mensagens que nos chegavam das mais diversas fontes, principalmente de deputados.

 

Juntou-se a nós, por volta das 17H00M o Prefeito Helder Barbalho, que me colocou na linha com um deputado que falava de dentro do CIG, de quem obtivemos a informação de que o Deputado Martinho Carmona fora chamado pela Governadora, para encabeçar a chapa governamental, mas, não conseguimos obter as quantas iam a sua posição.

 

Asseverei ao Deputado Jader que não acreditava em movimento algum do Deputado Carmona em nosso desfavor, ou já teríamos sido informados por quaisquer daqueles que ele porventura lograsse contatar em seu apoio. Tal juízo foi depois ratificado: o Deputado Martinho Carmona não só recusou o convite como aconselhou a Governadora a abandonar a empreitada a qual se contratara.

 

Fomos informados que o Governo instara o Deputado Seffer a encabeçar a chapa, mas, a falta de consenso em torno do seu nome e a resistência do G8 em quebrar o compromisso com o Deputado Juvenil, aguou-lhe o caldo pretendido.

 

A bateria do meu celular estava recarregando quando disparou o sino. Olhei o visor: eram 18H28M e o Puty. O Chefe de Gabinete do Governo não rodeou: pediu-me que não desligasse o celular e nem viajasse, pois ele estava ultimando algumas providências e me ligaria em seguida.

 

Repassamos os votos. As informações que tínhamos davam conta de que o Centro Integrado de Governo não conseguira romper o contingente de 18 deputados em suas fileiras. Isto nos dava a contingência de contar com os outros 22, pois a eleição se daria com apenas 40 membros no plenário, com o Deputado André Dias em tratamento de saúde em São Paulo.

 

Estávamos, portanto, embora com virtual maioria numérica, em uma situação delicada: quem tem 22 pode ter 18, sendo a recíproca verdadeira.

 

Concluímos que o grande problema do Governo era mesmo conseguir um nome para conduzir a peleja: este nome deveria ter força para aumentar o número no qual o CIG empacara e com o qual seria fatalmente derrotado.

 

Reconfirmei o G8 com os deputados Marcio Miranda e Haroldo Martins: ambos mantinham a posição e garantiam o grupo.

 

Eram 19H30M quando o Puty ligou novamente, informando-me que o Deputado Sefer iria ter comigo e deveríamos seguir para o CIG: a Governadora houvera concordado em lançar uma chapa somente para a mesa, deixando o Deputado Juvenil sem adversários na sua reeleição à Presidência da Assembléia Legislativa.

 

Aquiesci e desliguei. Levantei-me e, dirigindo-me aos demais, mirando o Deputado Jader Barbalho, disparei: “Eles capitularam! Não conseguiram votos para nos bater".

 

Expliquei a exclamação ao reproduzir a fala do Puty: se a Governadora houvera concordado em lançar uma chapa somente para a mesa, era sinal de que o Governo não conseguira candidato e nem votos suficientes para bater o Deputado Juvenil.

 

O Deputado Juvenil inquiriu o porquê de eu ter que me deslocar ao CIG nestas circunstâncias.

 

O Deputado Jader ponderou que seria indelicado recusar o convite da Governadora: passou-me as instruções e despachou-me para o palco de operações do Governo.

 

O Deputado Sefer me aguardava em uma esquina da Presidente Vargas, de onde me desviou para a Estação das Docas.

 

A brisa leve da Baía do Guajará soprava em uma mesa externa, na qual sentavam-se os deputados Adamor Aires e João Salame. O Deputado Sefer queria que ambos se deslocassem da chapa que tinha o PSDB na 1º vice-presidência para compor a chapa que seria lançada pela Governadora.

 

Os deputados Aires e Salame refutaram a alternativa: o G8 dera a palavra a uma chapa e não a quebraria em hipótese alguma.

 

Eu disse aos deputados que uma coisa me surpreendia agradavelmente neste episódio que vivíamos: os políticos resolveram manter as suas respectivas palavras.

 

O Deputado Sefer, na verdade, já esperava o resultado da conversa. Apenas provocou a pantomima para pedir-me, a caminho do CIG, que testemunhasse a Sua Excelência que ele houvera tentado.

 

Eram 22H20M quando entramos no CIG. O estacionamento estava em completa escuridão. O ar era sombrio, como o de um Palácio em estertores de resistência.

 

Tentei conferir os carros que a penumbra me permitia, para identificar os seus proprietários e assim apropriar-me da informação de quem estava lá. Segundo informações, lá estavam 17 deputados.

 

Fomos conduzidos, eu e o Deputado Sefer, ao salão de reuniões, onde nos aguardavam o Presidente do PT, João Batista, e o Puty, que, após os cumprimentos, retirou-se, para logo em seguida retornar com a Governadora.

 

Acompanhei, com o olhar, a entrada de Sua Excelência no salão. Notei quão abatida ela estava. Vestia uma calça jeans clara e uma blusa branca. A sandália baixa, sem salto, tirava-lhe o porte da autoridade. O cansaço, de mãos dadas com a contrariedade, emprestava-lhe o ar de estresse que o rosto denunciava.

 

À medida que Sua Excelência de aproximava de mim, os traços que eu desenhava se tornavam mais nítidos e intensos. Quando ela chegou ao alcance do meu cumprimento, levantei-me e preparei-me para um diálogo não agradável.

 

Ela iniciou a fala repreendendo educadamente, mas de forma ríspida, a posição do PMDB: sentia-se traída pelo Presidente Juvenil, que alçara o PSDB à posição que ela contestava.

 

Respondi que a bancada do PT fora avisada, pelo Presidente Juvenil, que o PSDB seria chamado a compor a chapa e houvera concordado.

 

A Governadora retrucou que compor a chapa não era o caso, mas sim a posição na composição é que não houvera sido antes consultada.

 

Ponderei que o Presidente, ao obter a aquiescência da bancada do PT, que inclusive me houvera sido confirmada pelo líder da mesma, Deputado Carlos Martins, não estava obrigado a evidenciar os detalhes da composição.

 

Sublinhei que o PT já estava contemplado, desde o início, com a posição mais importante da Mesa Diretora, a 1ª secretaria.

 

Asseverei que o impasse estava sendo causado por uma posição sem importância estratégica nos trabalhos da Casa: a 1ª vice-presidência sequer opinava na elaboração da pauta.

 

A Governadora voltou ao argumento de que o PT nunca participara da mesa quando era oposição.

 

Retruquei com a fala do Deputado Megale: assim fora por opção do partido e não por falta de convite.

 

A Governadora irritava-se com o exercício de esgrima em que se transformava o diálogo. Resolvi baixar a guarda: dando um tom amistoso ao timbre convidei a Governadora a abandonarmos aquele tipo de abordagem e procurarmos dar solução à equação que eu fora lá chamado para ajudar a montar.

 

A Governadora aquiesceu. Durante o diálogo constatei o quanto ela estava realmente cansada e desgastada com tudo aquilo: imaginei o que ela teria passado desde a sexta-feira, na tentativa de montar a sua infantaria. A lividez da sua tez denunciava que estava, para ela, sendo de alto custo pessoal e político o embate.

 

Este quadro, e não quaisquer outros argumentos me serviram de ponto de inflexão na decisão que tomei no salão do CIG: deveríamos tentar ajudar a Governadora a sair de um abismo que ela cavara com os próprios pés, ao entestar, precipitadamente, uma contenda que, naquele ponto, se mostrava inglória a todos os envolvidos nela.

 

Já houvéramos assegurado, com a desistência da Governadora de lançar uma chapa para disputar com o Deputado Juvenil, a manutenção do Palácio da Cabanagem. Era hora de iniciarmos uma operação de descompressão com o Palácio dos Despachos.

 

A Governadora abria a sua agenda quando a porta do salão se abriu e entraram os deputados Adamor Aires e João Salame, que queriam participar-lhe que não poderiam compor a chapa alternativa à mesa, pelo fato de já terem um compromisso.

 

Queria, o G8, afastar de si o anátema de um grupo fisiológico, formado, à juízo do Governo e da imprensa, para pressionar por interesses escusos: aquele seria o momento efetivo para mostrar que não agia desta forma.

 

A Governadora não os contestou e começou a expor-me a sua tática. Pediu-me algumas providências e instou-me a ajudá-la no intuito.

 

Eu já estava no CIG por mais de duas horas e os deputados que lá estavam, embora em outro prédio, obtiveram a informação: especulações começaram.

 

O sinal amarelo acendeu no departamento de contra-espionagem do PSDB e nos demais membros do G8 que não foram avisados, pelo Deputado Sefer, que eu iria ao CIG.

 

O meu celular tocou. Olhei o visor. Eram 23H50M e o Secretário Particular do Deputado Jader Barbalho, Antônio José, pedindo-me para que me afastasse, se eu estivesse na presença de alguém: o Deputado Jader precisava falar-me com urgência.

 

Pedi licença e procurei o banheiro, de onde avisei ao meu interlocutor que poderia falar: o Antonio José disparou que eu não mais deveria permanecer no CIG, pois a minha presença lá estava gerando movimentos no G8 e no PSDB que poderiam arranhar a solidez que houvéramos conseguido.

 

Passou o celular ao Deputado Jader, que foi mais incisivo, instando-me a deixar o local imediatamente: a cúpula do PSDB, e membros do G8, intuíam que a minha presença no CIG só poderia ser missão autorizada por ele e a cisma era de que eu estava incumbido de entregar a Sua Excelência a 1ª vice-presidência.

 

Respondi que eu estaria a caminho da residência do Presidente Juvenil, onde nos reuniríamos, em 15 minutos.

 

À saída do banheiro defrontei-me com o Puty, que conduzia o Deputado Arnaldo Jordy ao meu encontro: queria este ouvir de mim a confirmação de que o PMDB “autorizara” outra chapa da 1ª vice-presidência para baixo.

 

Convidei o Deputato Jordy para uma pequena sala e, sozinhos, narrei à ele tudo que ocorrera desde que eu chegara ao CIG. Perguntou-me se estava liberado do compromisso que fizera com o Presidente Juvenil de votar na chapa que tinha o PSDB na 1ª vice-presidência.

 

Respondi que o PMDB não tinha como impedir o lançamento de outra chapa, mas, que continuávamos a dar suporte à chapa já definida por nós à mesa.

 

Saímos e entramos no salão de reunião onde estava a Governadora. O Deputado Jordy revelou a Sua Excelência que já tinha dado a palavra ao Presidente Juvenil e iria mantê-la.

 

Despedi-me da Governadora prometendo-lhe uma ligação depois de estar com o Deputado Jader. Eu estava no meio do corredor de saída, quando ela me pediu que parasse e fez-me mais dois pedidos: comprometi-me a providenciar.

 

Eu deixava o CIG quando o celular tocou: eram 00H23M e o Deputado Haroldo Martins, que me revelava a rebordosa causada pela minha presença no CIG. Pedi-lhe tranqüilidade, assegurando-lhe que as coisas estavam sob controle.

 

À saída, avistei o carro do Deputado Roberto Santos. Lancei os olhos para o interior do veículo: lá estava o próprio Deputado Santos e achei que a vista me traia ao pensar ver, ao seu lado, o Deputado Manoel Pioneiro, do PSDB.

 

Mais tarde tive a confirmação de que os meus olhos não me traíram: o Deputado Pioneiro, atendendo ao chamado do Deputado Roberto Santos, que ousava cooptá-lo, tinha sido despachado ao CIG sob a autorização da inteligência do PSDB, para, aproveitando a oportunidade, apurar a minha estada lá.

 

Cheguei à residência do Deputado Juvenil. Narrei toda a estada no CIG e a intenção da Governadora. Descrevi o estado em que ela se encontrava e opinei que deveríamos tentar ajudá-la a não ser vencida no amanhecer.

 

Após quase uma hora de conversa, concluímos que a única saída seria convencer o PSDB a recuar, mas não iríamos, unilateralmente, afastá-los.

 

Eram 02H00M da terça-feira quando saímos da casa do Deputado Juvenil. À saída, o Deputado Jader pegou-me pelo braço afastando-me dos demais, e entregou-me a última missão daquela madrugada.

 

Cheguei em casa e fui ao meu gabinete preparar algumas providências. O celular tocou: eram 02H38M e a Governadora, que me pediu duas providências imediatas.

 

Antes de desligar ela vaticinou que se fosse derrotada na manhã que se avizinhava, ela seria obrigada a romper com o PMDB.

 

Fiz uma ligação ao Deputado Junior Hage que ainda atendeu àquela hora. Não quis mais incomodar o Deputado Juvenil e nem o Deputado Jader.

 

Retornei a Sua Excelência e disse-lhe que a outra metade da empreitada pedida, eu me desincumbiria assim que raiasse o Sol.

 

Eram 03H05M quando entrei no quarto. Ann não abriu os olhos inquisidores: limitou-se a esticar-me o lençol.

22 de dez de 2008

Muito barulho por nada III

 Domingo, 30.11.08 - Avante camaradas!

Coluna Prestes - Portinari. Clique na imagem para seguir o link. Eu, Ann e Lígia, decolamos cedo para Altamira, onde passamos o dia arrumando o apartamento em que esta ficaria.

 

Entre uma faxina e outra eu atendia o celular: eram deputados ou amigos querendo saber as quantas andava a carruagem.

 

Ainda no sábado, por duas vezes, instamos a Governadora a conversar com o Deputado Jader.

 

A primeira, à tarde, quando recebi um telefonema do Puty participando-me que Sua Excelência não concordara em lançar uma chapa a partir da 1ª vice-presidência.

 

Respondi-lhe que nós também mantínhamos a posição. Brinquei, dizendo que não tivéramos competência suficiente para resolver o impasse, portanto deveríamos deixar as instâncias superiores tentarem se entender.

 

O Puty retrucou, no mesmo tom, que quando eu escrevesse as minhas memórias eu deveria dizer que, ao menos, tentáramos.

 

O Deputado Jader escutava-me a fala. Narrei-lhe a fala do Puty. Após ouvir, ele fez um gesto com as mãos e sentenciou que deveríamos esperar os próximos movimentos.

 

Lembrei-me do Rui Barata, em Pauapixuna: "O tempo tem tempo de tempo ser".

 

A segunda investida na conversa de Sua Excelência com o Deputado Jader se deu no mesmo sábado à noite, quando o Deputado Juvenil entrevistou-se com ela: a Governadora aquiesceu e disse que o convidaria no Domingo.

 

Eram 21H42M. Os motores Pratt & Whitney que a Beechcraft incrustou nas asas do elegante King Air, rugiram vigorosos quando o manche comandou a decolagem.

 

À medida que as luzes de Altamira abaçanavam, as lágrimas de Ann brotavam: estávamos deixando a nossa filha caçula na cidade.

 

Tomei-lhe a mão e lembrei-lhe Gibran: “Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma”. Ela sorriu, mas as lágrimas continuaram a chorar.

 

Pousamos em Belém por volta das 23H00M. O Deputado Juvenil esperava-me em sua residência, de onde o Deputado Jader acabara de sair, vindo da casa da Governadora.

 

À mesa, servia-se a ceia. O Deputado Juvenil postava-se, sorridente, à cabeceira: a conversa da Governadora com o Deputado Jader houvera transcorrido alvissareiramente.

 

Ao fim da narração, conclui que a conversa fora longa no geral, mas, no objeto da audiência ela se resumira à reincidência do impasse. Não consegui alcançar onde estavam, então, as alvíssaras do encontro.

 

Pedi ao Deputado Juvenil que me ministrasse o que eu não houvera decifrado, ao que ele respondeu que achara que a cordialidade da conversa encaminhava uma solução na qual a Governadora acabaria cedendo aos fatos, aceitando a chapa.

 

Postava-se tão bem a mesa, e o Deputado Juvenil sorvia-lhe com tal apetite, que eu não quis verbalizar o que conclui para não lhe por fel nos talheres.

 

Olhei para Ann: ambos intuímos que a Governadora ficara em casa apostando que o Deputado Jader cederia aos seus apelos, e este partira de lá achando que ela aceitaria os seus argumentos.

 

A nossa telepatia foi interrompida pelo toque do celular do Deputado Juvenil: era o fel que eu não lhe desejei como tempero.

 

- É a Governadora! Anunciou ele.

 

Fez-se silêncio. Ouvia-se a voz de Sua Excelência ao alto falante do celular, mas não se conseguia decifrar-lhe a fala.

 

O Deputado Juvenil, na delicadeza de nos por a par do diálogo, repetia alguns trechos da fala de Sua Excelência, que, para ela, soavam como interlocução e para nós como peças na formação da mensagem.

 

Ao fim, a governadora brincou de lá, em um trocadilho astutamente malicioso a respeito da escolha que deveríamos fazer. O Deputado Juvenil devolveu de cá e despediram-se.

 

Resumiu-nos o diálogo naquilo que já entendêramos pelas intercalações ouvidas e fez-se um déjà vu: exceto pelo tom mais leve, a fala da Governadora voltou ao mesmo conteúdo da sexta-feira pela manhã.

 

Ela foi mais adiante: o Deputado Juvenil teria o suporte do Palácio dos Despachos, desde que afastasse o PSDB da 1ª vice-presidência; e não aceitava fazer chapa alguma pela metade.

 

Vimos isto como uma falange perfilada nos portões do Palácio dos Despachos rumo ao Palácio da Cabanagem.

 

Alguém, no núcleo do Governo, talvez, não aceitara esperar para a segunda o ultimato que poderia ser dado no domingo, e instara a Governadora a vir ao centro do palco de operações para instigar o Deputado Juvenil a ceder: isto foi conclusão nossa, para tão repentina atitude.

 

Já estávamos do outro lado da meia-noite: era 01H20M da segunda-feira quando o Deputado Jader Barbalho nos abriu a porta da sua residência e nos conduziu ao seu gabinete.

 

Narrou-se a conversa do Deputado Juvenil com a Governadora pouco tempo antes. O Deputado Jader, que sempre ouve sem maiores expressões no rosto, denunciou um franzir de testa: isto significa, no seu código de expressões, pintura para guerra.

 

Iniciou, o Deputado Jader, a sua deliberação, exordiando com o que fizera para ser realidade a candidatura da então Senadora Ana Julia; de como convencera o Deputado Priante a abdicar de uma vaga certa na Câmara Federal e compor o planejamento que poderia levá-la ao Palácio dos Despachos, planejamento este que envolveu o Gabinete Presidencial do Palácio do Planalto na operação, para, ao final, ser benzido pelo Presidente da República.

 

Passou para a narração, onde elencou fatos que, já durante o Governo, preferiu não contestar como tangência de termos do acordo feito, na presença de todos nós, e assumidos por Sua Excelência, no prédio do Diário do Pará.

 

Finou esta parte sublinhando o suporte que sempre o PMDB deu ao Palácio dos Despachos desde o Palácio da Cabanagem.

 

Pinçou da narração as provas de que as nossas atitudes não autorizavam o tratamento que vínhamos recebendo e o ultimato que nos fora oferecido.

 

A peroração veio seca: não havia motivos para ceder. Não cederíamos. A nossa oposição seria diretamente proporcional à disposição do Governo de romper.

 

Às 02H30M descíamos o elevador vestidos com a resolução do Presidente Regional do PMDB.

 

Despedi-me do Presidente Juvenil com o compromisso de estarmos cedo no Gabinete Presidencial do Palácio da Cabanagem.

 

Quando entrei no quarto Ann, que eu deixara em casa à caminho da residência do Deputado Jader, despertou e sentou-se à beira da cama com a mesma pergunta nos olhos sonolentos.

 

Respondi com um teatro que sempre faço a ela quando vamos enfrentar ventanias, que consiste em coreografar uma marcha e entoar a primeira estrofe da Canção do Exército, que eu cantava todo 7 de setembro quando desfilava, em Tucuruí, pelo Grupo Escolar Arquimedes Pereira Lima:

 

“Avante, camaradas!

Ao tremular do nosso pendão

Vençamos as invernadas

Com fé suprema no coração."

 

Perto dos 30 é que eu fui saber que o hino “Avante Camaradas”, sempre tocado em cerimônias militares, na verdade foi composto, por Antonio do Espírito Santo, para a Coluna Prestes, nos anos 20, e o Exército se apropriou dele. Mas isto é outra história.

 

Fomos dormir: a segunda-feira, que logo amanheceria, prometia ser longa.

15 de dez de 2008

Muito barulho por nada II

Sábado, 29.11.08 - O início das escaramuças

Gravura representando um enfrentamento entre os cabanos e as forças do governo durante a Cabanagem. Gravura representando um enfrentamento entre os cabanos e as forças do governo durante a Cabanagem.

 

(Não consegui a autoria desta gravura. Se alguém souber, por favor me informe, para que seja dado o devido crédito)

 

Meu almoço é um ciabata com manteiga e um café com leite médio. Às vezes exagero e peço um pão careca como sobremesa.

 

O melhor ciabata de Belém está na esquina da Braz de Aguiar com a Dr. Moraes. Foi na calçada da Delicidade que eu o Puty nos sentamos para conversar.

 

O que já houvéramos concluído foi ratificado pelo Puty: trazer o PSDB para a 1ª vice-presidência levara o núcleo do Governo a intuir que o acordo extrapolara a mesa e alcançara as eleições de 2010.

 

O Chefe de Gabinete do Palácio cantou-me a chapa de 2010: o ex-governador Simão Jatene para governador, o ex-senador Luis Otávio para vice-governador e Jader Barbalho para Senador.

 

Pensei com os meus botões: “esta é até uma boa opção que eles nos estão dando”. Não quis verbalizar, contudo, o chiste, para não levar a conversa para a adolescência.

 

O PT não confia em aliados, mantendo-os a uma distância além da regulamentar, o que não permite a conquista e assevera a ruptura, daí a dificuldade do Governo em consolidar uma base no parlamento, onde se refletem as insatisfações do mau tratamento recebido.

 

Para o PT, os aliados devem ser mantidos em prateleiras altas. Quando ele necessita de algum, desce-o, e, depois de usá-lo, sobe-o de volta, onde se deve manter empoeirado.

 

Eu já dissera ao Chefe de Gabinete do Palácio que o PMDB não desejava a ruptura que sempre pairava na relação, mas, se o PT investia nela sempre, a partir dali não mais insistiríamos: estávamos preparados para romper.

 

Observei que o Governo avaliava equivocadamente o nosso movimento de 2010: arregimentáramos 41 prefeitos e 1 milhão de votos e isto, a priori, nos autorizava a marchar com um candidato próprio em 2010 caso houvesse um rompimento.

 

O candidato do PMDB ao governo seria o Deputado Jader Barbalho. A campanha de 2010, portanto, teria dois ex-governadores a serem confrontados pela atual governadora: Jader em Jatene.

 

Após mais algumas doses de diálogos de guerra fria, quando os lados fazem questão de protagonizar munições, mas ressalvam os tiros, aventou-se a hipótese, na esteira de solucionar a crise, de o governo montar uma chapa para a mesa, preservando a candidatura do Presidente Juvenil.

 

Na Assembléia Legislativa do Pará, a eleição do Presidente da Casa se faz em primeiro lugar, e somente depois disto se elege a mesa, onde estava o impasse.

 

Despedimo-nos convencidos de que o rompimento da aliança, ainda que fosse uma expectativa, não deveria ser uma oportunidade. As respectivas razões para tal ficaram nas entrelinhas do diálogo. Algumas, em certos momentos, foram negritadas.

 

O Deputado Jader Barbalho me esperava na enorme mesa do Diário do Pará. Narrei-lhe os detalhes do encontro. Ele ouviu circunspecto: avaliava as missivas que mandara ao Governo por mim, assim como as de lá entregues pelo Puty.

 

À chegada do Deputado Juvenil, já concluíramos que os dois lados fabricavam munição para uma batalha que ambos desejavam evitar, embora não descartassem travá-la.

 

Embora tivéssemos vantagem numérica consolidada, o Governo contava com a arregimentação usual para nos impor defecções, todavia, a fragilidade do Palácio dos Despachos, nos fazia acreditar que, por mais que algumas defecções houvesse, elas não seriam suficientes para nos bater.

 

Iniciou-se no sábado, nos dois lados, a contagem dos votos: nós, com a contingência de aferir as possíveis defecções; o governo, no afã de alcançar número para lançar um candidato que pudesse liquidar o Deputado Juvenil.

 

Cismamos que o Palácio convocaria o Deputado Martinho Carmona, de nossas próprias fileiras, para ser a ponta de lança do seu ataque ao Deputado Juvenil e que, caso o Deputado Carmona aceitasse a operação, o Palácio teria conquistado uma cabeça de ponte consideravelmente perigosa.

 

Os celulares disparavam o sino a todo o momento: iniciara a intriga, mãe da discórdia, Prima Donna da barganha.

 

A governadora, quiçá, começou a verificar que poderia estar caminhando uma trilha onde é assaz complicado saber de que lado está o adversário: a política é também a arte da dissimulação.

 

Os rumores de uma chapa palaciana ganharam corpo. O governo ensaiava cenários e convocava virtuais candidatos: teve dificuldades para encontrar alguém que fosse consenso, mas continuou a providenciar.

 

À tarde a Governadora decidiu reabrir o diálogo com o Deputado Juvenil, convidando-o a sua residência: interpretamos o movimento como um índice da dificuldade do Palácio em montar a sua infantaria.

 

O Deputado Jader Barbalho e eu conversamos longamente com o Deputado Juvenil. Estabelecemos cenários de possíveis enfrentamentos. As conclusões eram sempre de que não havia risco cinemático de derrota.

 

Sob a certeza de que não faltariam votos para a sua reeleição, o Deputado Juvenil, à boca da noite, deixou o seu apartamento rumo à residência da Governadora.

 

A conversa foi longa. A Governadora estava ponderada, todavia não cedia aos argumentos do Deputado Juvenil.

 

Alegou que nos 12 anos em que o PSDB ocupou o Palácio dos Despachos, o PT jamais teve assento à mesa da Assembléia Legislativa, portanto não poderia aceitá-los, agora, na 1ª vice-presidência. Advertiu que o PT, em reunião, também emitira resolução no mesmo sentido.

 

Ao fim, o Deputado Juvenil saiu da residência governamental com um recuo tático do governo: o PSDB seria aceito na mesa, desde que em outra posição geográfica. A Governadora sugeriu a inversão da chapa, ou seja, o PSDB viria para a 2ª vice-presidência e aquele que a ocupava chegaria à primeira.

 

Ao ouvirmos o relato do Deputado Juvenil sobre o encontro com Sua Excelência, decidimos que o domingo seria uma espécie de armistício. Eu viajaria para Altamira logo cedo, e retornaria à noite, ficando com a aeronave lá para qualquer emergência de retorno.

 

Era 01H30M da madrugada de domingo quando cheguei em casa. Ann fitou-me. Seus olhos perguntaram como estava a situação.

 

Respondi que o impasse persistia, embora o rompimento não mais me parecesse tão perto quanto na sexta-feira, mas, que ela continuasse com as gavetas da Paratur limpas, como eu a advertira antes.

8 de dez de 2008

Muito barulho por nada I

A crise que envolveu a recente eleição da Mesa Diretora da Assembléia Legislativa do Pará tem tido muitas versões: aqui vão os fatos.

 

O título é o mesmo da comédia “Much ado about nothing”, onde o bardo mistura banquetes, príncipes, condes e damas, que se embrenham em calúnias, perfídias, duelos, fugas, dores e amores: Shakespeare.

 

E tudo por algo não tão bem entendido ou explicado: apenas caprichos humanos.

 

Toda a segunda-feira virá um dia, a começar pela sexta, 28.11, passando pelo dia mais grave, segunda, 01.12, e terminando na terça, 02.12.

 

Sexta-feira, 28.11.08 - O anúncio da crise

A combustão - Dave Nitsche. Clique na imagem para seguir o link.

Minha filha passara no concurso do Ministério Público Federal, que a lotou em Altamira. Eu e Ann viajaríamos à tarde para preparar o apartamento que houvéramos alugado para acomodá-la.

 

Pela manhã o meu celular chamou. O nome do Deputado Domingos Juvenil, Presidente do Poder Legislativo do Pará, apareceu no visor. Ele narrou-me um telefonema que acabara de receber da Governadora do Estado.

 

Sua Excelência recusava veementemente a participação do PSDB na 1ª vice-presidência da mesa diretora da Assembléia Legislativa do Pará.

 

“Ela não aceita o PSDB em lugar algum da mesa”, narrava-me o Deputado Juvenil, “e rompe com o PMDB se isto não for desfeito”, completava o relato.

 

Sugeri que nos dirigíssemos ao Diário do Pará, onde estava o Deputado Jader Barbalho, Presidente Regional do PMDB.

 

Na extremidade direita da enorme mesa de madeira de lei da sala de reuniões do Diário do Pará, estava sentado o Deputado Jader Barbalho e seu assessor Antonio José, que me ouviram o relato do telefonema do Deputado Juvenil. A primeira decisão foi vetar a minha viagem para Altamira naquela tarde.

 

O Deputado Juvenil chegou. Sugeriu procurar o PSDB, explicar a situação, e pedir à agremiação que aceitasse a saída da chapa, o que foi refutado pelo Deputado Jader Barbalho: o PMDB houvera convidado o PSDB para compor a 1ª vice-presidência e não poderia desconvidá-lo em um primeiro soluço vindo do Palácio dos Despachos.

 

Naquele momento se estabelecia o impasse até então mais grave na aliança que se estabelecera entre o PT e o PMDB, no segundo turno da eleição majoritária dois anos antes. Por ironia eventual, a aliança fora selada naquele mesmo prédio do Diário do Pará.

 

Fiz uma ligação ao Chefe de Gabinete do Palácio dos Despachos, Claudio Puty. Argumentei que a aliança com o PSDB à mesa era originalmente tática e não extrapolava os limites do Poder Legislativo.

 

Acrescentei que não havia razões para uma crise na aliança, já esgarçada por motivos outros, pelo fato de o PSDB ter alcançado uma posição diretora que não tinha maiores repercussões na administração da pauta legislativa.

 

O Chefe de Gabinete retrucou que a posição da Governadora estava mantida e que não via razão para adicionar o PSDB na mesa, já que o Deputado Juvenil houvera, com outros partidos, garantido a sua reeleição.

 

O diálogo era previsível e medido. O intento, todavia, houvera sido alcançado: estabelecer uma correspondência qualificada com o Palácio, no meio da crise, pois se sabia que no momento em que ela vertesse às ruas, aqueles cuja expertise é jogar lenha na fogueira iniciariam o serviço.

 

Avaliamos que a ameaça de rompimento não seria considerada, pelo fato de não termos receio algum das respectivas conseqüências: o PMDB, e nem um dos seus próceres, conseguira, até agora, algo substantivo na aliança sempre estressada com o PT, por isto, não nos era sacrifício ir para a oposição.

 

O Deputado Jader Barbalho sugeriu que nos mantivéssemos em vigília, à espera do próximo movimento do Palácio e, dependendo deste, organizaríamos a resistência.

 

Saímos para almoçar na casa do Deputado Juvenil. Antes de chegarmos ao destino recebi um telefonema. Alguém do outro lado da linha pedia-me para ser recebido: disse aos deputados que eles não teriam a honra de ter-me à mesa e rumei a minha residência onde marcara com o interlocutor.

 

Em casa, no meu gabinete de trabalho, a conversa com a figura que me ligara começou algo tensa. Observei que não poderíamos fazer o papel do guerreiro alucinado: aquele que, no calor da liça, golpeia para todos os lados e acaba decepando o próprio pescoço.

 

Amainou-se, ao meio, a conversa. Ao final, estabeleceu-se um pacto: tentar dissolver o impasse para salvaguardar a governabilidade serena que o Palácio houvera tido nos dois anos que se findavam.

 

Todavia, havia certa imponderabilidade na empreitada: como equacionar uma chapa à mesa sem o PSDB, a vontade da governadora, se o PMDB já o houvera convidado, e não tinha intenção de, unilateralmente, fazer-lhe o distrato?

 

Enquanto isto, no governo, iniciou-se o movimento que se intensificaria a partir do sábado: montar uma chapa palaciana para a defenestração do PMDB da Presidência do Poder Legislativo.

 

No final da tarde, chegou uma mensagem da Governadora no celular do Deputado Juvenil: ela não poderia recebê-lo à hora aprazada na ligação da manhã.

 

Lemos a mensagem como a senha para a nossa arregimentação: precisávamos nos preparar para a contenda.

 

Recebi uma ligação do Palácio: o Puty convidava-me para um café, no sábado pela manhã.

 

Participei o encontro ao Deputado Jader Barbalho, que aquiesceu, estabelecendo os limites do diálogo.

 

Terminei o dia com a sensação de que o rompimento com o PT estava na próxima esquina.