17 de out de 2009

A Missa do Galo

Autor: Machado de Assis (foto abaixo)

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NUNCA PUDE entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.

A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios.

Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas.

Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.

Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.

Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver "a missa do galo na Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.

— Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.

— Leio, D. Inácia.

Tinha comigo um romance, Os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D'Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.

— Ainda não foi? perguntou ela.

— Não fui, parece que ainda não é meia-noite.

— Que paciência!

Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro, ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:

— Não! qual! Acordei por acordar.

Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma cousa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer Já disse que ela era boa, muito boa.

— Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.

— Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.

— Quando ouvi os passos estranhei: mas a senhora apareceu logo.

— Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.

— Justamente: é muito bonito.

— Gosta de romances?

— Gosto.

— Já leu a Moreninha?

— Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.

— Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?

Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.

"Talvez esteja aborrecida", pensei eu.

E logo alto:

— D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...

— Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio, são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?

— Já tenho feito isso.

— Eu, não, perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.

— Que velha o que, D. Conceição?

Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou concertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas idéias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.

— É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.

— Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. S. João não digo, nem Santo Antônio...

Pouco a pouco, tinha-se reclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor.

A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia, contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras cousas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:

— Mais baixo! mamãe pode acordar.

E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido: cochichávamos os dous, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou, trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho:

— Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve, se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.

— Eu também sou assim.

— O quê? perguntou ela inclinando o corpo, para ouvir melhor.

Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti-lhe a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.

— Há ocasiões em que sou como mamãe, acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me e nada.

— Foi o que lhe aconteceu hoje.

— Não, não, atalhou ela.

Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria e eu pegava novamente na palavra.

De quando em quando, reprimia-me:

— Mais baixo, mais baixo. . .

Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas.

Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma cousa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.

— Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.

Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava "Cleópatra"; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.

— São bonitos, disse eu.

— Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.

— De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.

— Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso, mas eu penso muita cousa assim esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.

A idéia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.

Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.

— Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo.

Concordei, para dizer alguma cousa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.

Chegamos a ficar por algum tempo, — não posso dizer quanto, — inteiramente calados. O rumor único e escasso, era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: "Missa do galo! missa do galo!"

— Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.

— Já serão horas? perguntei.

— Naturalmente.

— Missa do galo! — repetiram de fora, batendo.

— Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus até amanhã.

E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei.

Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.

Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

O sorriso da Monalisa

Autor: Parsifal Pontes

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A primeira vez que eu vi a Monalisa fiquei decepcionado: um quadro pequeno, atrás de um vidro de segurança, em um corredor tumultuado do Louvre.

A minha expectativa mostrou-se bem maior que a obra que eu acabara de ver. Acabei concluindo que a Monalisa, menos que uma obra prima, era mais um ícone precipitadamente escolhido pela mídia.

Eu acalentava uma dúvida sobre quem houvera sido mais prodigioso, se Leonardo da Vinci ou Michelangelo Buonarroti: sempre que eu me decidia por Michelangelo, imediatamente procurava algo de Da Vinci e a dúvida voltava.

Eu já tinha uma queda por Michelangelo, devido ao Moisés.

Sempre que vou a Roma, não parto sem ir a San Pietro in Vincoli. Dentro da igreja eu experimento dor e êxtase: aquela ao fitar as correntes com as quais Roma submeteu o apóstolo Pedro; este ao admirar a obra magistral de Michelangelo, o Moisés.

Saí do Louvre decepcionado, todavia aliviado: eu acabara de decidir que Michelangelo fora melhor que Leonardo.

Mal sabia eu que estava sendo injusto com Da Vinci. A minha decepção com a Monalisa, pouco tempo depois, viria a se mostrar precipitada.

Talvez por providência, uma série de fatos passou a me chamar atenção, e comecei a estabelecer com eles conexões imediatas com a obra preferida de Da Vinci.

Eu estava relendo Dom Casmurro, de Machado de Assis. Capitu, um dos personagens femininos mais fascinantes da literatura universal, sempre teve forma fugidia para mim.

Assim a descreve Machado: “criatura de 14 anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra, à moda do tempo,... morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo...”.

Capitu, a partir do momento em que Machado a apresenta, torna-se o tema central da imaginação do leitor. Passa a ser o personagem principal da obra.

Continua Machado na descrição da moça: “... olhos de cigana oblíqua e dissimulada, mas para Bentinho os olhos pareciam olhos de ressaca; traziam não sei que fluido misterioso e energético, uma força que arrastava para dentro, com a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca".

Parei a leitura, para pintar Capitu na mente. Não mais que de repente, lá estava o quadro de Da Vinci em frente aos meus olhos. A Monalisa me sorria venturosa: ali estavam o sorriso, os olhos e a atitude de Capitu na janela de Machado de Assis.

Eu já fizera uma conexão, quando li, do mesmo Machado de Assis, aquilo que eu considero a obra prima do conto nacional, o Missa do galo.

Comparei Conceição com Capitu. Todo o perfil dissimuladamente insinuante e psicologicamente incerto daquela senhora, reportava-me à personagem central de Dom Casmurro.

Quis concluir que Machado traçara o mesmo perfil feminino, ideal para protagonizar o seu conto mestre.

Machado, através do personagem Nogueira, diz de Conceição: “... Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar...” e, mais adiante, “... o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo...”.

Machado, nas duas personagens, concluía pela dissimulação. Um perfil psicológico complicado, de quem tem sempre o álibi inquietante da dúvida a oferecer ao interlocutor.

Mais uma vez, a capa da obra poderia ser, perfeitamente, a Monalisa que, no conto, era Conceição, a encher de dúvidas o Nogueira, da mesma forma que Capitu tirou o sossego do bentinho.

Não poderia, neste curto ensaio, alongar-me em exemplos buscados na literatura, para definir este tipo de mulher que Da Vinci pintou na Monalisa.

Detive-me no gênio de Machado de Assis, por ser nacional e, com certeza, sem influência alguma do gênio de Leonardo, para buscar na Monalisa a personalidade dos personagens femininos aqui rapidamente demonstrados.

Todavia, em se querendo ratificar exaustivamente a tese em tela, que acabou sendo a minha revelação para recolocar da Vinci no mesmo patamar de Michelangelo, pode-se buscar em vários outros autores o mesmo tipo característico feminino:

Alexandre Dumas Filho, descreve Maria Duplessis, através da personagem Margarida Gauthier, em A Dama das Camélias, com as mesmas peculiaridades de Capitu e Conceição, e as três despertam nos personagens masculinos, o mesmo tipo de atitude.

Em Rigoletto, a paixão do Duque de Mântua, é retratada em uma ária que se tornou um clássico popular: La donna é móbile.

Ao se ouvir a ária, acompanhando a letra, tem-se o perfil e a atitude de Capitu, Conceição e Maria Duplessis.

Verdi colocou a Monalisa em uma melodia na qual cabia perfeitamente a letra, e definia matreiramente o perfil que Da Vinci pintou: “ela muda sempre seu discurso e seu pensamento, e apesar de ter um rosto amável e gentil, no choro ou no riso, é apenas uma dissimulação”, diz certo trecho da ária.

Ao delinear o perfil de uma mulher de trinta anos, na verdade, Balzac queria definir um tipo de mulher aos trinta anos.

Por um processo metonímico, todas as mulheres desta faixa de idade acabaram sendo adjetivadas como balzaquianas, equivocadamente.

Basta ler “A mulher de trinta anos”, do mestre Honoré, que na sua definição vão estar todos os personagens acima descritos “... um misto de sedução e madureza...”, dizia Balzac: eis aí o enigmático, o indefinível pela dúvida do que possa ser a tez que se apresenta na figura específica deste determinado tipo.

Encheríamos páginas com exemplos de monalisas na literatura universal.

A genialidade de Da Vinci, demonstrada na Monalisa, foi que ele conseguiu materializar um tipo de mulher em uma tela.

Gravou em um rosto uma personalidade cantada em versos e prosas pelos demais gênios pelo mundo afora.

Colocou em uma tela, em um só rosto, o rosto de todas as mulheres que se alinham no perfil que Machado, Victor Hugo, Balzac, Dostoievsky, Tolstoi e tantos outros se esforçaram em definir.

Eu achei, depois de todas estas conclusões, que havia descoberto o segredo do fascínio da Monalisa e o porquê de Leonardo se ter apaixonado pelo quadro, a ponto de não se desfazer dele por preço algum.

Ele o levava para onde quer que fosse. Passou, a Monalisa, a ser o fetiche de Da Vinci.

Esta atitude do mestre em muito contribuiu para o sucesso e a aura de fascínio em torno do quadro, afinal, se o gênio o havia escolhido como obra preferida e pessoal, alguma coisa a mais deveria ter nele.

Os ocultistas da época, e os de hoje, juravam que a Monalisa tinha algo de extremamente misterioso, por isto o mestre o guardava a sete chaves.

Acredito que o que conseguiu Da Vinci com a Monalisa, foi o mesmo que conseguiu Michelangelo com o Moisés: aprisionar o próprio gênio na obra.

Ambos, depois de findas as respectivas obras, viram que haviam conseguido o estado de arte, por terem colocado nelas tudo aquilo que idealizaram.

Não cometeram erros: foram deuses nos seus respectivos ofícios.

Eis o maior mérito de Moisés e da Monalisa. Ao fitá-los se vê a paixão dos mestres naquilo que tiveram de mais sublime: a busca acabada da perfeição.

Ao meu juízo, estavam empatados novamente.

Na segunda vez que vi a Monalisa, eu consegui enxergar toda a beleza da obra.

No meio dos empurrões apressados da multidão que a busca no Louvre, consegui ver a especificidade que Da Vinci quis pintar e a genialidade com que ele conseguiu o seu intento: mil rostos em só rosto; um tipo em mil perfis. Todos ali, na Monalisa, a sorrir sutilmente todos os sorrisos das mulheres que lhe cabem na atitude dissimulada e gentil.

Dei-me por satisfeito. Quis receber aquilo como uma revelação, mas, para querer ser cético, quis que fosse apenas uma constatação.

Tive certo pudor, e ao mesmo tempo um choque, procurando afastar da mente o que esta me queria intuir ver, quando fui apanhado por um ângulo da Monalisa: eu acabara de ver ali o rosto de Maria.

Não a Maria de Alexandre Dumas Filho, ou outra Maria assim batizada: era a Virgem Maria, ou seria a Madalena?

Abanei a cabeça para espanar os pensamentos. Eu já tinha uma opinião formada, no decorrer de cinco anos do que eu deveria ver na Monalisa e constatara o meu juízo no momento em que a vira. Não havia motivo lógico algum para eu estar com aqueles pensamentos então.

Olhei novamente o quadro. Meu espanto foi maior: vi o próprio Leonardo Da Vinci sorrindo para mim.

Lembrei-me de um estudo que queria demonstrar que Da Vinci houvera pintando a si mesmo na Monalisa, daí porque o enigmático sorriso. Mas eu não dera crédito àquilo, pois me pareceu algo muito simplório para o gênio e para a obra.

A solução da equação que eu montava na mente me veio como um raio.

Inspirado no trabalho do arquiteto romano Vitruvius Pollio, De Architetura, que explica a relação entre simetria e perfeição, Leonardo Da Vinci elaborou o seu desenho mais famoso, que veio a ser o desenho mais famoso do mundo também: o “Homem vitruviano”, um pentagrama humano, com o corpo de um homem dentro de um círculo.

Deitado de barriga para cima com as mãos e pernas abertas, o corpo masculino poderia ser circunscrito tendo o umbigo como centro do círculo. Sugere ainda, que a figura pode também estar contida exatamente dentro de um quadrado.

Da Vinci desenhou o arquétipo humano: de forma descritiva, elaborou o que Vitruvius houvera evidenciado analiticamente.

Neste desenho, Da Vinci traçou um arquétipo masculino. Uma figura na qual cabia todos os homens. Fez algo eminentemente técnico, aproveitando-se da elaboração cientifica de Vitruvius.

Em o “Homem Vitruviano”, Da Vinci foi um cientista.

O que poderia o gênio de Da Vinci produzir para o arquétipo feminino especificamente, já que o desenho acima comentado, na verdade, não era especifico, mas, evidentemente, o ser humano, homem e mulher, poderia ser tecnicamente encaixado na elaboração de Vitruvius.

Seria Da Vinci capaz de usar todo o seu engenho e arte para elaborar o arquétipo feminino?

Poderia ele pintar uma mulher na qual coubesse especificamente um tipo e, genericamente todos os tipos da alma feminina?

Milhares de estudos e ensaios, teses, têm sido produzidos sobre aquele singelo quadro, e o sorriso da Monalisa continua inconcluso no pensamento daqueles que ousaram desvendá-lo.

Não pode a ciência desvendar o sorriso da Monalisa, porque ele é o arquétipo da alma feminina.

Descobrir-lhe o enigma e evidenciar-lhe a definição seria desvendar o segredo da alma humana.

Por que a alma humana e não a alma da mulher, já que eu concluíra que ali estavam todas as marias do mundo, inclusive o rosto singelo e divino da Virgem Maria?

É que, ao ver o rosto de Leonardo na obra, intui que ele quis fundir o feminino com o masculino reunindo aquilo que os deuses haviam separado.

A mitologia grega conta que havia uma civilização ideal criada pelos deuses Vênus e Eros.

Nesta civilização, os seres possuíam quatros braços, quatro pernas, duas cabeças e dois troncos distintos: um feminino e um masculino. Estes seres tinham uma mesma alma, por isto viviam em completa harmonia.

Esta harmonia provocou a fúria de outros deuses, que, enciumados, enviaram uma tempestade com relâmpagos e trovões contra aquela civilização.

Cada relâmpago que caía atingia um ser, e os corpos eram divididos e levados pelas águas.

Esta civilização éramos nós. Os raios dividiram os nossos corpos e as nossas almas. Desde então, tem sido a luta incessante do ser humano procurar a sua outra parte.

A Monalisa, então, é o arquétipo do ser humano em sua essência. O todo. A união do feminino e do masculino. O início, o meio e o fim da criação.

Da Vinci codificou na sua obra prima, toda a história filosófica do ser humano. Impregnou ali todas as dúvidas e incertezas da nossa saga e, ao mesmo tempo, quis transmitir uma mensagem de esperança e serenidade, representada pela delicadeza no porte da mulher que pintou.

A Igreja medieval impôs a figura da divindade masculina, relegando a mulher a um plano teologicamente secundário.

Isto se fez dogma e ousar desrespeitá-lo era heresia.

Da Vinci tinha na Igreja um dos seus maiores clientes: não podia ousar fazer nada que a melindrasse, tendo, inclusive, modificado algumas obras para moldá-las à vontade da Santa Sé.

Ele, todavia, filiava-se à crença, tida como pagã em sua época, e até hoje, de que a divindade era feminina: Deus era mulher.

Ia, na verdade, mais além: Deus era comum aos dois gêneros, cuja face era representada com a delicadeza, a sutileza, a serenidade, a ambiguidade e a maternidade femininas.

Leonardo precisava escrever isto para a posteridade. Precisava mostrar a perfeita imagem da divindade feminina em todas as suas nuances, e se Deus nos houvera feito a Sua imagem e semelhança, todos, homens e mulheres precisavam estar representados, e serem reconhecidos, na obra que ele se propunha a fazer.

Voltei o olhar à Monalisa. Achei que eu podia pensar que inventara tudo aquilo, em trinta segundos, apenas para justificar, com um certo enredo lógico, a minha confusão analítica.

Certa ou errada, a conclusão decididamente reforçou-me a genialidade da obra: eu acabara de entrar no clube dos caçadores da alma da Monalisa.

Quisera eu decifrá-la, pois então, eu estaria decifrando o doce mistério da vida e do ser. Como ainda tenho dúvidas e não a decifrei, ela ainda me devora.

O tempo passa…

Autor: João Jenidarchiche.

 

Propaganda antiga da brilhantina Glostora

Aqui entre nós:

 

Você já leu “O Esporte” – “O Governador” – “Folha da Manhã” - “O Correio Paulistano” - “A Hora” – “O Pasquim” - “Tico Tico” “Noite Ilustrada” – “Folha da Noite” – “Notícias Populares” - “Revista do Rádio” - “A Cigarra” - “Realidade” - “O Cruzeiro”? Falando em Cruzeiro, lembra do Amigo da Onça?

 

A azia era tratada com Sal de Frutas ENO, ou com Sal de Uvas Picôt?

 

Já andou de Romiseta, de Lambreta, de Cadilac, de Pontiac, de Aéro Willys, de Fissori, de Vemaguete, de Doufini, de Gordine, de Simca Jangada, de Mércury, de Rabo de Peixe, de Packard, de Hudson, de Buick, de Nasch, de De Soto, de Simca Chambord, de Esplanada?

 

E de bonde, chegou a andar? Aquele aberto ou o camarão?

 

Juntou Figurinhas das Balas Futebol? Das balas seleções? E das balas Pão Duro? Você colava as figurinhas com Goma Arábica ou cola feita com água e farinha de trigo?

 

Tua bicicleta era Monark ou Bianchi?

 

Conheceu os Móveis de Aço Fiel?

 

Já ofereceu uma música para alguém em parque de diversão ou quermesse? Era música da Libertá Lamarque?

 

Quando resfriado, tomou injeção de Eucaliptol?

 

Seu pai usava chapéu Prada, Cury ou Ramenzzoni? E palheta, você chegou a usar? Boina também?

 

Lembra quando todas as geladeiras eram brancas e todos os telefones eram pretos?

 

Já teve um terninho de marinheiro? Tirou fotografia com algum?

 

Já matou passarinho com estilingue? E com visgo, pegou algum?

 

Chegou a ter uma calça Rancheiro, feita de brim Curinga, “aquele que não encolhe”?

 

O café de sua casa era Piloto, Jardim, Caboclo, Paraventi, ou Jambo?

 

Sua mãe utilizava ovo de madeira para coser as meias? E a linha era Corrente?

 

Tua mãe te dava Limonada Purgativa, Lacto Purga, Magnésia Leitosa, Salamargo, Entero Viofórmio, Magnésia de Philips, Óleo de Ríssino, Magnésia Bisurada ou Magnésia São Pelegrino?

 

Já dançou boleros ao som de discos do Trio Los Panchos, de Benvenido Granda, de Gregório Barros, de Lucho Gatica? Os discos eram da RCA Vitor, Philips, Continental, Odeon, Copacabana ou Poligran?

 

Tua TV era Semp, Windsor, Admiral, Colorado, Empyre ou Zenith?

 

Seus ídolos eram o Rock Lane, o Zorro, O Búfalo Bil, o Fantasma, o Durango Kid, Roy Rogers, o Tom Mix ou o Hopalong Casside?

 

Você fumou cigarros Aspásia, Saratoga, Sir, Negritos, Conchitas, Star, Fulgor, Yolanda, Everest, Lincoln, Luiz XV, Misbela, Vai e Vem, Hípicos, Petilondrinos, Macedônia, Pulmann, Castelões, Liberty, Astória, Columbia, Monitor, Kent, Beverly, Fio de Ouro, Lord, Big Bem, Líricos, Elmo liso e com ponta, Neusa? E cigarrilhas Tálviz?

 

E cigarro mentolado (já comprado pronto ou você passava o bastão de menta no papel)?

 

Chegou a cheirar rapé? Fez cigarro de folha de jornal? E de talo de xuxu?

 

De cigarrinho de chocolate aposto que você gostava.

 

Assistiu Marcelino Pão e Vinho? Lá Violetera? Sangue e Areia? Ben-Hur?

 

Tempos Modernos? Volta ao Mundo em 80 dias? 20 Mil Léguas Submarina?

 

Jogou futebol com bola de capotão? Usava chanca? Passava sebo nela?

 

Jogava de alf direito, alf esquerdo ou center alf? O goleiro do teu time usava joelheira? Você usava gorrinho?

 

Era chegado num drops Kids ou Dulcora?

 

Usa até hoje Leite de Colônia ou Leite de Rosas?

 

Lembra das Molas Suedem (aquelas que nunca cedem)?

 

Lembra das orquestras Copacabana, Roberto Ferri, Sílvio Mazzuca, Perez Prado, Biribas Boys, Osmar Milani, Erlon Chaves, Radamés Inghatalli?

 

Por falar em baile, você ia com calça boca de sino?

 

Você é do tempo em que os padres rezavam missa de costas para os fiéis?

 

Lembra quando a bateria de carro era chamada de acumulador?

 

Lembra dos acumuladores Heliar e Saturno?

 

Você já dormiu numa cama Patente? O colchão era da Probel?

 

Teu sanfoneiro preferido era o Sivuca, o Mário Zan, o Carlinhos Mafazzolli, o Ucho Gaeta, a Adelaide Chioso ou o Mário Genari Filho?

 

E no cavaquinho: Valdir Azevedo ou Jacó do Bandolin?

 

Já teve um bibloquê?

 

Chegou a conhecer algum pracinha da FEB?

 

Lembra das missas rezadas em latim?

 

Por falar em missa, lembra que as mulheres usavam véus para comungar?

 

Na tua casa já teve moringa? E filtro Sallus?

 

Já usou ternos risca de giz? Usava gravata com prendedor? Colocava distintivos na lapela e lencinho no bolso do paletó?

 

Já usou fitinha preta na lapela em sinal de luto? Chegou a usar colete? E suspensório? E cachecol?

 

Já teve relógio de bolso? Aposto que o de pulso era Mirvani, Movado, Eska, ou Mido, certo?

 

Usou camisa Volta ao Mundo? E abotoaduras?

 

Chegou a assistir o seriado A Deusa de Joba?

 

Usava nos cabelos Quina Petróleo Sandar, Seiva Rica Flora, Brilhantina Royal, Royal Brilhante, Glostora, Gumex, Óleo de lavanda Bourbon, Óleo Dirce? Após a barba, usava Aqua Velva?

 

E o teu pente era Flamengo?

 

Você usava gintan ou sem-sem? E Astringosol?

 

Acompanhou O Direito de Nascer, Escrava Isaura, Estúpido Cupido, Irmãos Coragem, Redenção?

 

Já teve um radinho Spicka?

 

Nos olhos pingava Lavolho ou Colírio Moura Brasil?

 

Bebia Fogo Paulista, Biter, Creme de Ovos, Grapete, Kimel, Amargo Gambarota, Ferro Quina Bisleri, Trentini, Vinho Quinado, Genciana, Anisete, Passarela? Chegou a tomar a Cerveja Preta Mossoró?

 

Usava meias Lupo e Lobo? E lenços Presidente?

 

Voou pela Real Transportes Aéreos (aquela do corcundinha) e pela Cruzeiro do Sul? E nos Dart Herald da Sadia?

 

Já tomou Cebefosfan, Licor de Cacau Xavier, Regulador Xavier, Pílulas de Vida do Doutor Ross, Pílulas de Lussem, Cibalena, Emulsão de Scott, Elixir de Capeba Composto, Hepacolan Xavier, Cafiaspirina?

 

A tosse, era curada com Fimatosan? E a bronquite com Rhum Creosotado? Tomou Biotônico Fontoura? Se tomou aposto que leu o livro de Jeca Tatu. Certo?

 

Já teve um par de sapatos Clark?

 

Já tomou vinho Reconstituinte Silva Araújo?

 

Lavava-se com sabonete Lifeboy, Eucalol, Vale Quanto Pesa, Carnaval ou Linda Ross? Após o banho chegou a usar o talco Ross? E o óleo e o talco Jonhson? Chegou a usar creme Rugol, Antissardina, pomada Minâncora? E Creme Ponds?

 

Já tomou Cremogena?

 

Tua mãe lustrava os móveis com óleo de Peroba ou com Lustrol?

 

Teve uma máquina fotográfica Kapsa? Aquela de caixão?

 

Quando bebê, em dor de ouvido, sua mãe lhe ministrava Aurissedina? Vai dizer que ela nunca aqueceu um pano com óleo Singer quente e colocou-o sobre seu ouvido.

 

Por falar em mãe ela usava cera Dominó, Fidalga ou Parquetina? E a preferência era por sabão Campeiro, Cristal, Solevante, Moreninho, Vencedor ou Platino? Aposto que já usou sabão de cinzas também, certo?

 

Desculpe a intimidade: usou papel higiênico Tico Tico?

 

E sabão em pó era Lux ou Rinso?

 

A máquina de costura de sua mãe era Vigorelli, Singer ou Elgin?

 

Sua mãe tinha preferência por qual óleo: Lírio, Solevante, Delícia ou Salada?

 

A maça de tomate (atual extrato de tomate), era Amália?

 

Aposto que teus cintos e carteiras eram da Lazko. Certo?

 

Já usou piteira?

 

Já colocou azul de metileno nas balas dadas aos amigos? Por falar em balas lembra das balas Paulistinha e balas e doces Confiança?

 

Já teve um violão Del Vechio? Um Di Giorgio? E uma harmônica Rampazzo?

 

Já escalou um pau de sebo em festa junina?

 

Já usou aquela pulseirinha de cobre para reduzir a pressão arterial?

 

Tua caneta era Park 21, 51 ou Sheafers?

 

Usou creme dental Signal (aquele das listas vermelhas) e Eucalol?

 

Chegou a jogar batalha naval?

 

Já teve uma Gaita Hering?

 

Sua mãe usava ferro a carvão? Ela passava escovão no assoalho?

 

Desculpa a intimidade mas você se lavava em tina ou em bacia? Esfregava-se com bucha?

 

Chegou a se comunicar na língua do P?

 

Lembra dos lanterninhas no cinema?

 

Chegou acender cigarro no sol, com lente de óculos?

 

Já assistiu a Paixão de Cristo em circo? E Deus lhe Pague?

 

Tomava Toddy, Vic Maltema ou Ovomaltine? E Arrozina?

 

Sua mãe usava colorau?

 

Vocês tinham Super Flit? E Espiriteira?

 

Para insetos era Detefon ou Neocid?

 

Para brilho no alumínio era Cito Pox?

 

Para clarear as roupas brancas usava o Anil Colmann?

 

Para engomar a camisa do pai era com Goma Pox?

 

Gostava de Alvarenga e Ranchinho, Jararaca e Ratinho, Torres Florêncio e Rieli, Titulares do Ritmo, Quatro Azes e um Curinga, Bando da Lua, Dupla Ouro e Prata, as Irmãs Galvão, Bob Nelson, Cascatinha e Inhana, Motinha e Nha Fia, do Zé Fidelis, do Pagano Sobrinho, Nhô Totico, da Nhá Barbina, Wilma Bentivegnha, do Ivon Cury, Ciro Monteiro, Caco Velho, Agostinho dos Santos, Altemar Dutra, Nora Ney, do João Dias (nem falo de Francisco Alves, do Mazzaropi, do Fuzarca e Torresmo, do Pimentinha e Arrelia, do Piolim, Carequinha, do Vicente Leporaci, Amaro César, Enzo de Almeida Passos, Moraes Sarmento, Henrique Lobo, Blota Júnior, Sonia Ribeiro, Randal Juliano, Maria Estela Barros, Odair Batista do arquivo musical? E do J. Silvestre? Lembra do regional do Rago? E do regional do Santana? E do Zimbo Trio?

 

Já teve uma mala da Primícia?

 

Já usou cueca feita com saco de farinha?

 

Lembra dos móveis provençal?

 

Chegou a ver a tua mãe abanando o fogão à lenha com tampa de panela?

 

Na dor de dente você usava Guaiacól?

 

Chegou a ser operado da garganta e do apendicite (É que hoje em dia tais operações são muito raras)? Por falar em garganta, com o que sua mãe pincelava a sua?

 

Assistia as séries Bonanza, Bat Masterson, Vigilante Rodoviário, Rin Tim Tim? Lembra das trapalhadas do Sargento Garcia na série do Zorro?

 

Gostava da voz do Walter Foster? e da do Hélio Ribeiro?

 

Você tinha radio vitrola? E relógio Cuco?

 

Sua irmã brincava com bambolê? Usava calças da Levis, blusa de banlon e saia plissada? O pano era do Tecidos Zogby?

 

Ouvia a PRK 30? a Escolinha de dona Olinda, o Edifício Balança mais não cai, O pic up do Pica Pau, Hoje é domingo, Grande Jornal Falado Tupy, Parada de Sucessos, Hora da Ave Maria (com Pedro Geraldo Costa), Repórter Esso, O crime não compensa, Cadeira de Barbeiro, Expresso da Alegria, Broto também tem saudades, Astros do disco, Na beira da túia, Histórias das malocas, Família Trapo, Entrega do prêmio Roquete Pinto, Esta noite se improvisa, O céu é o limite, Concerto para a Juventude, Gincana Kibon?

 

Sua mãe moia toucinho para fazer banha, ou já utilizava a Gordura de Coco Brasil?

 

Já tomou raspadinha de gelo com groselha?

 

Chegou a ter um par de alpargatas roda?

 

Já teve sapatos de verniz?

 

Por falar em sapatos, aposto que você já usou aquelas chapinhas na biqueira e no salto para reduzir o desgaste do couro da sola, certo?

 

Viu algum filme em terceira dimensão?

 

Sua mulher levou enxovais Artex para o casamento?

 

A tua vedete preferida do teatro rebolado era a Elvira Pagã, Luz Del Fuego, Mara Rubia, Carmem Verônica, Virgínia Lane (a vedete do Brasil) Sonia Mamede, Renata Fronzi ou Marli Marley?

 

Lembra do Topo Gigio? E do Sigismundo?

 

Já escorregou em Tobogã?

 

Já fez anel com caroço de Jatobá? Brincou de unha na mula? Jogou figurinha à bafo?

 

Lembra do Biriba (mascote do Botafogo) e do Biriba do tênis de mesa? E biribinha, chegou a comer em festas de aniversário e de casamento?

 

Chegou a pedir benção e santinho para padre?

 

Teu ídolo do volante foi: Chico Landi, Ascari, Farina ou Juan Manoel Fangio?

 

Você saia na chuva com galocha e capa de chantung?

 

Teu lápis era John Faber ou Castell?

 

É meu, o tempo passa...

O último discurso

Charles Chaplin, em O Grande Ditador

O texto abaixo é de autoria de Charles Chaplin e faz parte do filme, do mesmo, “O Grande Ditador”. 

 

“Sinto muito, mas não pretendo ser imperador. Não é esse o meu ofício.

 

Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio...negros...brancos.

 

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim: desejamos viver para a felicidade do próximo, não para o seu infortúnio.

 

Porque haveremos de desprezar e odiar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

 

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo a muralha do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios.

 

Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria.

 

Nossos conhecimentos nos fizeram céticos. Nossa inteligência, empedernidos e cruéis.

 

Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

 

A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós.

 

Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes.

 

Aos que me podem ouvir eu digo: - "Não desespereis!".

 

A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que produto da cobiça em agonia... da amargura dos homens que temem o avanço do progresso humano.

 

Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens a liberdade nunca perecerá.

 

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada , que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão.

 

Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas!

 

Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos!

 

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade!

 

No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou de um grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós!

 

Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade!

 

Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa.

 

Portanto, - em nome da democracia - , usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo novo que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

 

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais cumprirão!

 

Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo.

 

Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão. Um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à aventura de todos nós.

 

Soldados, em nome da democracia, una-mo-nos.

 

Hannah, está me ouvindo?! Onde te encontres, levanta os olhos!

 

Vês Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam. Estamos saindo da treva para luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade.

 

Ergue os olhos, Hannah! A alma dos homens ganhou asas e afinal começa a voar.

 

Voa para o arco-íris, para a luz da esperança.

 

Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!”

O jornalismo e o leviatã

Eu fui um dos que critiquei o Presidente Morales quando este nacionalizou o gás boliviano, tungando a Petrobrás, em cerca de 01 bilhão de dólares.

 

A imprensa nacional teceu durar críticas a Lula por se ter deixado pegar desprevenido no episódio.

 

Só consegui ler um único artigo que fez uma análise pró Morales: foi escrito pelo jornalista Nunzio Briguglio, em 22.05.2006, e publicado no site ABC Politiko.

 

Embora eu discorde da maior parte do texto, transcrevo-o abaixo para que seja estabelecido o contraditório:

 

O jornalismo e o leviatã

nunzio[1] Autor: Nunzio Briguglio

Nestes tempos de individualismo, onde prepondera sobretudo a visão do “se dar bem, não importa a que preço”, um dos setores mais atingidos por uma onda ética e, sobretudo moral, é o jornalismo.

 

Não que em algum momento as redações de todo o mundo fossem verdadeiras ilhas de despreendimento, ou que o ego dos jornalistas fossem suplantados por um conceito de tal forma altruísta, que, afinal, pudessem ser levados a Roma, para quem sabe tornarem-se santos, ou beatos.

 

Nada disso. Mas, o motor que fazia vibrar o ânimo de uma redação há 30 anos era outro. O perfil daqueles que se aventuravam por uma profissão, até então maldita, também era outro. Os objetivos eram outros.

 

Juca Kfouri, o notável jornalista esportivo, outro dia sentenciou que o verdadeiro jornalista tem que ter um compromisso claro com a mudança da sociedade. Ou seja, ele se sacrifica, sacrifica a sua vida pessoal, sacrifica a sua família, corre risco de vida, para informar ou interpretar fatos, que de alguma forma vão provocar uma reflexão nos leitores, ou expectadores, ou internautas, de forma que esta massa desinforme e heterogênea chamada opinião pública produza as transformações, que na essência, buscam um mundo mais justo, mais igual e mais feliz.

 

O surgimento de um novo Leviatã, chamado mercado, princípio inteligente do que o cientista italiano Toni Negri chama de império, criou como reação à postura histórica do jornalista, o chamado jornalismo de resultado. Ou seja, mais do que o respeito pela prática da profissão, importa ao profissional o que ele consegue com a divulgação de notícias ou fatos. E isso se reflete na conquista de bens materiais como carros, casas e apartamentos mirabolantes, frequência em casas noturnas badaladas e roupas de grife.

 

Nem de longe há qualquer preocupação com o resultado de sua atuação.

 

Esta reflexão vem à tona por conta da postura de alguns jornalistas brasileiros na cobertura dos incidentes diplomáticos gerados a partir da estatização dos recursos naturais da Bolívia. O presidente Evo Morales foi praticamente massacrado pelos jornalistas e pelos jornais, revistas e televisões brasileiras por sua postura.

 

Recém convertidos, ou devorados, por este moderno Leviatã, prepondera na cabeça de grande parte do jornalismo pátrio a visão de que, fora do mercado, não há salvação.

 

No ápice da crise criou-se um bordão, segundo o qual, qualquer solução para o impasse devia ser econômica e não ideológica. E esta máxima obrigou o governo do presidente Lula a um desgaste desnecessário e precipitado com o governo do país andino.

 

Ora, quem conhece a Bolívia sabe que não há solução de mercado possível para um país historicamente condenado a espoliação, primeiro colonial, e depois social. São anos de marginalização da população indígena, mais de 80% de todo o país, condenada a sub-economia da cultura da coca, ou a trabalho semi-escravo nas minas.

 

Não será um choque de capitalismo que vai reverter este quadro. Não resta alternativa para o presidente Morales, que tem intenções claras de promover a inclusão social da população boliviana, se não a nacionalização dos recursos naturais do país, a reforma agrária, a reforma educacional e a reforma sanitária. Isso foi claramente entendido pelo presidente Hugo Chavez, da Venezuela, por Fidel Castro, de Cuba, por Lula e por Kirchner.

 

É óbvio que desagradou aqueles que enxergam no Consenso de Washington o remédio para todos os males do mundo, os capitalistas que imaginam aumentar seu apetite de ganhos com a exploração dos recursos naturais e da mão de obra boliviana barata e desqualificada.

 

A Petrobrás tem todo o direito de recorrer e de defender sua posição. É uma empresa capitalista, uma das maiores do mundo, orgulho nacional brasileiro. Mas, certamente não pretende se confundir com as seis irmãs americanas, cuja postura ao longo do século XX foi explorar o seu negócio, fazendo surgir em suas instalações uma ilha de prosperidade, enquanto o seu entorno afundava na miséria.

 

O presidente Morales tem razão quando diz que o Brasil sempre deu as costas para os países da Cordilheira dos Andes. Não é uma novidade. Sempre foi assim mesmo.

 

A história registra que a negociata que envolveu a compra do Acre, foi um péssimo negócio para um país que dependia da Bacia Amazônica para ter acesso ao Atlântico, cuja saída para o Pacífico foi arrebatada depois de uma guerra sangrenta com o Chile, e que incrustada em um altiplano de mais de três mil metros de altura, ainda se viu envolvida em uma guerra fratricida pelo controle do gás e do petróleo com o Paraguai, quando na verdade se via a disputa entre a Shell e a Exxon.

 

Eike Batista não é santo. Não foi para a Bolívia com o objetivo de ajudar o país a transformar sua realidade social. Queria era aproveitar-se de uma conjuntura favorável que lhe propiciasse um aumento de seus negócios. Mais dinheiro e mais poder. Obedeceu as regras impostas pelo mercado.

 

Ou seja, a cada dólar aplicado, um dólar de lucro, trabalhadores, nativos, etc, que se danem.

 

A Petrobrás está em um dilema. Não pode ter um comportamento semelhante. Afinal parte dela ainda é estatal e obedece aos ditames de um governo popular, democrático, que pelo menos no papel, se elegeu para confrontar este modelo.

 

E aí entram os coleguinhas e os colegões a dizer abobrinhas e a defender uma solução de mercado. Como se fossem, todos, capitalistas nos moldes da Inglaterra vitoriana, a defender a civilização britânica em troca da exploração dos recursos naturais de um país colonizado.

 

Para piorar demonizam a figura do presidente Chavez e ridicularizam a revolução bolivariana, como se isso fosse uma ameaça. Ou como se o Brasil não tivesse no seu interior venezuelas e bolívias, os brasileiros se reunissem em clubes no final da tarde, para tomar chá e conferir a cotação da bolsa.

 

Coleguinhas e colegões ficam deslumbrados com Davos, com Wall Street, com a Casa Branca, em Washington, se esquecem que a nossa realidade está muito mais para La Paz, Caracas, Calcutá e etc...

 

O Brasil tem a ver com a Bolívia, com a Venezuela, com Cuba, com Angola, Moçambique, Índia, África do Sul. Estes para desespero da classe média brasileira são os parceiros brasileiros. Não Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, França e Alemanha.

 

Estes mesmos países desenvolvidos que insistem em ditar as regras do mundo, foram responsáveis pela mais odiosa exploração capitalista e colonialista do planeta no século XIX, provocaram mais de uma dezena de guerras, duas delas mundiais, com mais de 30 milhões de mortes.

 

O governo dos Estados Unidos, o mesmo país que impõe a Cuba um bloqueio econômico sem precedentes, é o mesmo país que conviveu e convive com o racismo, com o macartismo, inventa uma calunia para invadir o Iraque e quer impor este novo Leviatã a todo mundo. Até agora não diminuiu a miséria, nem a fome do mundo.

 

Juca tem razão. Jornalistas tem o desprendimento de defender a verdade, de relatar e interpretar os fatos, de acordo com ela. Não se confundem com publicitários, lobistas ou empresários. Não protagonizam reality-shows, nem se consideram mais importantes que a notícia. Pena que hoje sejam tão poucos.

16 de out de 2009

A Cabanagem

Texto de Rainer Sousa - Graduado em História

Gravura representando a tomada de Belém pelos cabanos. A questão da autonomia política foi, desde a independência, a grande força motriz motivadora de diversos conflitos e revoltas no Brasil.

 

Na província do Pará, a péssima condição de vida das camadas mais baixas da população e a insatisfação das elites locais representavam a crise de legitimidade sofrida pelos representantes locais do poder imperial.

 

Além disso, a relação conflituosa entre os paraenses e os comerciantes portugueses acentuava outro aspecto da tensão sócio-econômica da região.

 

A abdicação de Dom Pedro I e ascensão do governo regencial estabeleceram a deflagração de um movimento iniciado em 1832.

 

Naquele ano, um grupo armado impediu a posse do governador nomeado pela regência e exigia a expulsão dos comerciantes portugueses da província.

 

No ano seguinte, Bernardo Lobo de Sousa, novo governador nomeado, administrou o Pará de maneira opressiva e autoritária. Desta maneira, abriam-se tensões e a possibilidade de uma nova revolta provincial.

 

Em 1835, um motim organizado pelo fazendeiro Félix Clemente Malcher e Francisco Vinagre prendeu e executou o governador Bernardo Lobo de Sousa.

 

Os rebelados, também chamados de cabanos, instalaram um novo governo controlado por Malcher.

 

Francisco Vinagre, líder das tropas do novo governo, se desentendeu com o novo governador. Aproveitando de seu controle sobre as forças militares, tentou tomar o governo, mas foi preso pelo governador.

 

Em resposta, Antônio Vinagre, irmão de Francisco, assassinou Félix Clemente Malcher e colocou Francisco Vinagre na liderança do novo governo.

 

Nessa nova etapa, Eduardo Angelim, líder popular, ascendia entre os revoltosos. A saída das elites do movimento causou o enfraquecimento da revolta.

 

Tentando aproveitar desta situação, as autoridades imperiais enviaram o almirante britânico John Taylor, que retomou o controle sobre Belém, capital da província.

 

No entanto, a ampla adesão popular do movimento não se submeteu à vitória imperial. Um exército de 3 mil homens liderados por Angelim retomou a capital e proclamou um governo republicano independente.

 

O governo, agora controlado por Angelim, abria possibilidades para a resolução dos problemas sociais e econômicos que afligiam as camadas populares. No entanto, a falta de apoio político de outras províncias e a carestia de recursos prejudicou a estabilidade da república popular.

 

Sucessivas investidas militares imperiais foram enfraquecendo o movimento cabano. Em 1836, Eduardo Angelim foi capturado pelas autoridades do governo imperial.

 

Entre 1837 e 1840, os conflitos no interior foram controlados. Diversas batalhas fizeram com que este movimento ficasse marcado por sua violência. Estima-se que mais de 30 mil pessoas foram mortas.

 

Dessa maneira, a Cabanagem encerrou a única revolta regencial onde os populares conseguiram, mesmo que por um breve período, sustentar um movimento de oposição ao governo.

12 de out de 2009

O trabalho desencantado

 
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"O capital não precisa mais e precisará cada vez menos do trabalho de todos"
 
Leia um trecho do livro "Misérias do Presente, Riqueza do Possível", do sociólogo austríaco André Gorz, lançado pela Editora Annablume.
 
1. O mito do elo social
 
Vivemos a extinção de um modo específico de pertencimento social e de um tipo específico de sociedade: aquela que Michel Aglietta chamou "sociedade salarial" e Hannah Arendt, "sociedade do trabalho" ("Arbeitsgesellschaft"). O "trabalho" pelo qual se pertencia a essa sociedade não é, evidentemente, o trabalho em seu sentido antropológico ou filosófico. Não é nem o trabalho do camponês que labora seu campo, nem do artesão que realiza sua obra, nem aquele do escritor que trabalha seu texto ou do músico que trabalha em seu piano. O trabalho que desaparece é o trabalho abstrato, o trabalho em si, mensurável, quantificável, separável da pessoa que o "fornece", suscetível de ser comprado e vendido no "mercado de trabalho", em suma, o trabalho mercadejável, o trabalho-mercadoria, inventado e imposto pela força e com muita dificuldade pelo capitalismo manufatureiro a partir do fim do século XVIII.
 
Mesmo no apogeu da sociedade salarial, este trabalho, contrariamente ao que quer fazer crer sua idealização retrospectiva, nunca foi fonte de "coesão social" nem de integração. O "laço social" que estabelecia entre os indivíduos era abstrato e frágil. Ele os inseria, isto sim, no processo de trabalho social, nas relações sociais de produção, como elementos estreitamente imbricados e funcionalmente especializados de uma imensa maquinaria.
 
Socialmente determinado, homologado, juridicizado, legitimado, definido pelas competências e habilidades aprendidas, certificadas, tarifadas, este trabalho correspondia às exigências objetivas, funcionais da maquinaria econômica: da sociedade-sistema. Dava a cada um o sentimento de ser útil independentemente de sua intenção: útil de modo objetivo, impessoal, anônimo, e reconhecido como tal pelo salário que recebia e pelos direitos sociais que o acompanhavam.
 
Tais direitos não estavam ligados à pessoa do assalariado mas à função, em si mesma indiferente, que seu emprego preenchia no processo social de produção.
 
"Pouco importa o trabalho, desdeque se tenha um emprego. Pouco importa o emprego, desde que se tenha um." Tal era a principal mensagem ideológica da sociedade salarial: não se inquietem demais com o que fazem, o importante é que o pagamento caia no final do mês. E foi contra esta ideologia do trabalho-mercadoria, sem dignidade, nem interesse, nem sentido intrínsecos, trabalho constrangedor, opressivo, contrapartida instrumental do acesso a consumos cada vez mais opulentos, que combateram com veemência crescente os trabalhadores das fábricas, escritórios e serviços do fordismo taylorizado.
 
Integração e coesão sociais? Mesmo em seu apogeu, a sociedade salarial esteve dilacerada e "fraturada" pela divisão em classes e pelo antagonismo entre elas.
 
Não era à sociedade, mas à classe, ao sindicato, ao coletivo de trabalho que os trabalhadores integravam-se e era nas lutas para transformar ao mesmo tempo seu trabalho, sua vida e a sociedade que iam buscar "identidade", dignidade, cultura e coesão. E é contra sua coesão, sua "identidade" e sua organização de classe que "a firma", como se diz, dirigiu a arma absoluta, irremediável: a volatilização, a individualização, a descontinuidade do trabalho, sua abolição massiva, a insegurança para todos.
 
"Temam, tremam." A mensagem ideológica mudou: de "que importa o trabalho, desde que o pagamento caia no final do mês", transformou-se em "que importa o montante do pagamento desde que se tenha emprego".
 
Dito de outro modo, estejam prontos a todas as concessões, humilhações, submissões, competições, traições, para obter ou conservar o emprego; pois "quem perde o emprego, perde tudo". Tal é, senão o sentimento geral, ao menos a mensagem do discurso social dominante. Ele exalta a centralidade do trabalho, apresenta-o como um "bem", o que é o mesmo que dizer uma mercadoria rara, como algo que se tem ou não se tem, não como alguma coisa que se faz despendendo sua energia e seu tempo; como um "bem", para a "posse" do qual é preciso estar pronto a sacrifícios; como um "bem", pela criação do qual -pois doravante não é o trabalho que cria riqueza, é a riqueza (aquela dos outros) que "cria trabalho"- os "criadores de trabalho", quer dizer os empregadores, o patronato, os investidores, as empresas, merecem os encorajamentos e o reconhecimento da nação, as subvenções, os incentivos e descontos do fisco. O trabalho, um bem; o emprego: um privilégio. Privilégio cada vez mais raro, pois "vai faltar trabalho" e, quaisquer que sejam suas competências e habilidades, arrisca-se em breve ser dele "privado".
 
Enorme logro: não há, e não haverá nunca mais, "trabalho suficiente" (remunerado, estável, em tempo integral) para todos, mas a sociedade -de fato: o capital- que não precisa mais e precisará cada vez menos do trabalho de todos continua repetindo que não é ela, a sociedade, ah não!, é você, quem precisa de trabalho. Com muita dificuldade e empenho, a sociedade vai se dar ao trabalho de encontrar, trazer, inventar trabalho, trabalho que ela mesma poderia facilmente dispensar, mas trabalho que você precisa absolutamente.
 
Fantástica inversão: não é mais aquele ou aquela que trabalha que "se torna útil" aos outros; é a sociedade que vai se tornar útil, "permitindo" a você trabalhar, "dando" a você este "bem precioso", o trabalho, para evitar tanto quanto possível que você seja dele "privado". A mesma sociedade que parece surpresa e indignada quando aquelas e aqueles que têm o "privilégio" de trabalhar, pretendem, os ingratos, discutir ou mesmo recusar as condições de trabalho cada vez mais constrangedoras que se lhes impõem por um salário cada vez mais baixo.
 
Nunca a ideologia do trabalho-valor foi exposta, proclamada, ressaltada tão afrontosamente e nunca a dominação do capital, da empresa, sobre as condições e o preço do trabalho foi aceita tão docilmente. Nunca a função "insubstituível", "indispensável" do trabalho como fonte de "laço social", de "coesão social", de "integração", de "socialização", de "identidade pessoal", de sentido foi invocada de modo tão obsessivo, justamente a partir do momento que não pode mais preencher nenhuma dessas funções, nem nenhuma das cinco funções estruturantes que sublinhava Marie Yahoda em seu célebre estudo a respeito dos desempregados de Marienthal no início dos anos 30. Tornado precário, flexível, intermitente, com duração, horário e salário variáveis, o emprego deixa de integrar em um coletivo, deixa de estruturar o tempo cotidiano, semanal, ou anual e as idades da vida, deixa de ser a base sobre a qual cada um pode construir seu projeto de vida.
 
A sociedade na qual cada um espera encontrar um lugar, um futuro balizado, uma segurança, uma utilidade, esta sociedade -a "sociedade do trabalho"- está morta. O trabalho só conserva uma espécie de centralidade fantasmagórica, no sentido em que se diz que alguém amputado de um membro percebe ainda o membro fantasma que já não possui. Somos uma sociedade do trabalho fantasma sobrevivendo fantasmaticamente à sua extinção graças às invocações obsessivas, reativas daqueles que continuam a nele enxergar a única via possível e não podem mais imaginar outro futuro que não o retorno ao passado. E que, por isso, prestam o pior dos serviços: persuadem-nos que não há futuro, socialidade, vida, desenvolvimento de si fora do trabalho-emprego; que a escolha se faz entre o trabalho ou o nada, entre a inclusão pelo emprego ou a exclusão; entre a "socialização identitária pelo trabalho" ou a queda na "desesperança" do não-ser.
 
Persuadem-nos que é bom, normal, indispensável que "cada um deseje imperiosamente" isto precisamente que não existe mais e que nunca mais estará ao alcance de todos, a saber: "um trabalho remunerado em um emprego estável" única "via de acesso, ao mesmo tempo, à identidade social e à identidade pessoal", "ocasião única de se definir e construir um sentido a seu próprio percurso".
 
Estas invocações, reiteradas à exaustão, contribuem poderosamente para manter vivas normas já caducas; para perpetuar e justificar como "normais", expectativas completamente falsas com relação aos desenvolvimentos reais; para lançar à desolação e à impotência submissa aqueles cujas "justas" expectativas serão inevitavelmente frustradas; para confortar a estratégia de poder do capital que -para poder "flexibilizar", precarizar, individualizar, selecionar, aumentar a produtividade e o lucro, reduzir as remunerações e os efetivos- precisa exatamente disso que lhes oferecem em coro a ladainha da centralidade do trabalho-emprego e de suas insubstituíveis funções sociais: que todos continuem a desejar "imperiosamente" aquilo que as empresas só concederão a alguns, e que a competição de todos contra todos no mercado de emprego diminua as pretensões e aumente a submissão zelosa dos raros "privilegiados" aos quais a empresa permitirá que a sirvam.
 
É confortando a "opinião pública" por meio dessas expectativas irrealizáveis, dessa adesão a normas que não correspondem mais a nada, por meio de interpretações estereotipadas completamente deslocadas diante das realidades que elas pretendem decifrar, que se alimentam os maniqueísmos, a busca de bodes expiatórios, a ideologia e as práticas protofascistas. Dirão, empunhando pesquisas, que a "opinião pública" não está amadurecida para ouvir um outro discurso; que a aspiração a uma vida na qual o trabalho não seria mais central "não está definitivamente estabelecida"; em suma, que a ideologia do "ou bem o emprego ou, então, nada" corresponde ao estado de espírito da maioria e que qualquer outro discurso só pode interessar aos marginais ou aos "utópicos".
 
Estranha argumentação, esta: não apenas é falsa (nós o veremos na seqüência), mas ainda sustenta que se a maioria persiste em crer que a terra é quadrada, é preciso confortá-la nesta crença, dissimulando-lhe as provas que indicam o contrário. Estranha argumentação, esta, que faz o jogo dos partidários do poder por sua função repressiva, isto é, por sua vontade de ignorar, de censurar, de reprimir toda tentativa de ir ao fundo do problema: a questão não é saber se os indivíduos são capazes de..., se estão prontos a..., maduros, para uma sociedade e uma vida não mais centradas sobre o emprego; a pergunta, ao contrário, é saber como esta outra vida e esta outra sociedade podem ser antecipadas e prefiguradas já agora nos experimentos em grande escala, práticas e lutas exemplares, modos alternativos de cooperação, de produção, de habitação, de responsabilização auto-organizada das necessidades coletivas; saber como o medo de cair no buraco negro da não-sociedade e da nulidade individual pode ser apaziguado por meio de práticas comuns capazes de inventar e ilustrar novas solidariedades; saber como, no lugar de sofrer as mudanças tecnológicas, as economias de tempo de trabalho, as intermitências do emprego e sua precarização, é possível delas apossar-se coletivamente, conquistar a iniciativa e seu controle, voltá-las contra as estratégias do capital para fazer surgir novas liberdades possíveis; e, enfim, saber como todos podem ter garantida uma renda contínua quando o trabalho torna-se cada vez mais descontínuo.
 
2. Geração X ou a revolução sem voz
 
A não-sociedade absoluta é aquela que instala a incapacidade de ver e de querer além desta sociedade de trabalho que se esboroa. O problema situa-se na fronteira do cultural e do político. É preciso que as mentalidades mudem para que a economia e a sociedade possam mudar. Mas, inversamente, a mudança das mentalidades, a mudança cultural precisam ser relacionadas (e traduzidas) a práticas e a um projeto políticos para adquirir um alcance geral e encontrar uma expressão coletiva capaz de inscrever-se no espaço público. Enquanto não encontrar sua expressão pública e coletiva, a mudança das mentalidades pode ser ignorada pelos detentores do poder, dada por marginal, um desvio de pouco significado.
 
É aí, neste nível, que se situam o problema e a tarefa mais urgentes. Pois contrariamente ao que pretende o discurso do poder, a mudança das mentalidades já aconteceu. O que falta cruelmente é a tradução pública de seu sentido e de sua radicalidade latente. Essa tradução não pode ser obra espontânea de uma inteligência coletiva. Supõe "técnicos do saber prático" (como Sartre chamava os "intelectuais orgânicos" de um movimento nascente) capazes de decifrar o sentido de uma mutação cultural e os temas nela em pauta de modo a permitir aos sujeitos reconhecer suas aspirações comuns. Para conseguir realizar esse trabalho de interpretação, o observador-intérprete deve ser capaz de romper com os estereótipos interpretativos e culturais e alçar-se a um nível de consciência pelo menos igual àquele dos sujeitos mais conscientes do qual ele interpreta a experiência.