10 de jul de 2010

O Piloto

Autor: Ivo Simões

 

O rio está cheio.
O barco ancorado ao cais.
Amarrado por cordas e arretinidas.
Esperando a hora da partida.
Seu porão é grande, mas logo estará cheio de castanhas.
Que de hectolitro em hectolitro são medidos sobre o olhar atento do marca marcador.
Tudo pronto, porcos d’água a bordo, uns soltam o barco outros recolhem as pranchas.
O barco carregado parece deslizar suavemente.
Sob as ordens de seu principal condutor: o piloto.
A viagem é longa e o Rio Tocantins majestoso e traiçoeiro esconde:
Pedras, banco de areia e cachoeiras.
O piloto não pode errar.
Capitariquara a vista, começa a hora de aflição.
O piloto ordena: marinheiros e passageiros procurem seus lugares.
Porco d’água baixe e pregue as sanefas, mestre de proa amarre os tambores no molinete.
O piloto faz soar uma campainha, que é seu principal instrumento de comunicação entre ele e o maquinista.
O maquinista que por sua vez responde com seguidos toques de retinidos, avisando que está atento aos seus comandos.
Começa a operação descida.
Com seus braços fortes o mestre piloto segura firme a cana de leme, seu rosto se franze, seus músculos parecem querer pular.
Com um toque pede que diminua a aceleração do motor, mas pouco adianta.
O rio corre muito, e ele tem que ser preciso.
Em sua frente estouram rebojos, rodeados de pedras mortas.
O barco pesado parece gemer.
Em seguida vem a volta das três pedras.
E logo também vem o corte do engenho.
De tão pesado parecia que o barco ia afundar, mas logo se emerge.
É a famosa gangorra das cachoeiras.
O mestre piloto atento parecia não piscar.
Era uma luta bonita, onde o homem só tinha que acreditar nele mesmo fazendo o uso de todos os seus conhecimentos: técnica e força.
Naquela época não existia a avançada tecnologia de comando e o mestre piloto não podia errar, pois qualquer erro era fatal e todos os danos atribuídos a ele o piloto.
Muitos já se foram, os que ainda sobrevivem foram esquecidos por nossa história, mas eu ainda tenho em minhas lembranças.
Posso cantar que meus heróis não morreram de overdose.


Viva mestre Dadá!
Viva mestre Ramires!
Viva mestre Felipe Bala Doida!
Viva mestre Boca Preta!
E viva mestre Munguba!

Águas de passagem

Autor: Ademir Braz


Retinem nos ouvidos
velhas pás e gritos:
há odor de diesel
nos óleos do ar.
Cúmplice do vento
ando junto às pedras
zanza no rio-tempo
meu menino olhar.


No azul do porto
sobe e desce gente
carregando frutos
úmidos de sol:
sobre ombros curvos
corre mel do cesto
escorre sal da pele
nos degraus do cais.

 

Farto de castanha
cambaleia o barco
acima do banzeiro
que o vento atiça;
geme a quilha tesa
a corda retinida
range como range
a carne sob os cestos
nos degraus do cais.


Retinem nos ouvidos
tantas pás e gritos
e já não há no ar
os mastros em delírio...
Só, desaba a rua
agora sobre as águas
que deságuam cio
nos degraus do cais.

4 de jul de 2010

Marabá

Gonçalves Dias

Eu vivo sozinha, ninguém me procura!
Acaso feitura
Não sou de Tupá!
Se algum dentre os homens de mim não se esconde: 
"Tu és", me responde,
"Tu és Marabá!"

- Meus olhos são garços, são cor das safiras, 
- Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar; 
- Imitam as nuvens de um céu anilado,
- As cores imitam das vagas do mar!

Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:
"Teus olhos são garços",
Responde anojado, "mas és Marabá:
"Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,
"Uns olhos fulgentes,
"Bem pretos, retintos, não cor d'anajá!"

- É alvo meu rosto da alvura dos lírios,
- Da cor das areias batidas do mar;
- As aves mais brancas, as conchas mais puras 
- Não têm mais alvura, não têm mais brilhar.

Se ainda me escuta meus agros delírios:
- "És alva de lírios",
Sorrindo responde, "mas és Marabá:
"Quero antes um rosto de jambo corado,
"Um rosto crestado
"Do sol do deserto, não flor de cajá."

- Meu colo de leve se encurva engraçado, 
- Como hástea pendente do cáctus em flor; 
- Mimosa, indolente, resvalo no prado, 
- Como um soluçado suspiro de amor! —

"Eu amo a estatura flexível, ligeira,
Qual duma palmeira",
Então me respondem; "tu és Marabá:
"Quero antes o colo da ema orgulhosa,
Que pisa vaidosa,
"Que as flóreas campinas governa, onde está."

- Meus loiros cabelos em ondas se anelam, 
- O oiro mais puro não tem seu fulgor; 
- As brisas nos bosques de os ver se enamoram 
- De os ver tão formosos como um beija-flor!

Mas eles respondem: "Teus longos cabelos,
"São loiros, são belos,
"Mas são anelados; tu és Marabá:
"Quero antes cabelos, bem lisos, corridos,
"Cabelos compridos,
"Não cor d'oiro fino, nem cor d'anajá,"

E as doces palavras que eu tinha cá dentro
A quem nas direi?
O ramo d'acácia na fronte de um homem
Jamais cingirei:

Jamais um guerreiro da minha arazóia
Me desprenderá:
Eu vivo sozinha, chorando mesquinha,
Que sou Marabá!