28 de jun de 2011

Como foi a morte de Diana

Entrevista concedida à repórter Juliana Linhares, publicada nas “Páginas Amarelas” da revista “Veja”, edição 2223 – ano 44 – nº 26 – 29 de junho de 2011

 

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Médico mineiro que ajudou no atendimento à princesa fala sobre as medidas heroicas – e erros de atendimento – no acidente que matou a mulher mais famosa do mundo.

 

Não é possível afirmar que a princesa Diana morreu por ser quem era - sempre pairará uma dúvida cruel: os ferimentos sofridos por ela no acidente de carro em 31 de agosto de 1997 seriam fatais de qualquer maneira ou o resgate demorou mais ainda por envolver a mulher mais famosa do mundo? É possível, porém, sustentar que Diana teve os últimos resquícios de vida intensivamente prolongados porque os médicos dedicaram um esforço excepcional às chamadas medidas heroicas justamente por ela ser quem era. O cirurgião cardíaco Leonardo Esteves Lima, 46, acompanhou os últimos momentos da princesa no Pitié-Salpêtrière, o maior hospital de Paris, onde ele havia feito residência, mestrado e doutorado. Hoje baseado em Brasília, onde é coordenador de cirurgia cardíaca adulta do Instituto de Cardiologia do Distrito Federal. Lima relembra aquela dramática madrugada.

 

Como o senhor foi convocado para tratar da princesa? À 1h30 da madrugada, recebi um telefonema do hospital pedindo que eu me apresentasse para uma emergência. Naquela noite, eu não era o plantonista. Quem estava de plantão na área de cirurgia cardíaca era um dos chefes do departamento, o doutor Alain Pavie. Fui chamado apenas para ajudá-lo. Nessa hora, ninguém me disse que se tratava de um acidente com Diana.

 

Como Diana chegou ao hospital? Entubada e inconsciente. Seu coração ainda funcionava, mas, quando ela entrou no hospital e foi levada para a UTI, teve uma parada cardíaca. Era a segunda daquela noite, como saberíamos depois.

 

Quando aconteceu o que pode ter sido o primeiro erro no atendimento a Diana? O primeiro telefonema feito para a polícia, do local do acidente, foi à 0h26. A ambulância que levou Diana ao hospital só chegou ao Pitié-Salpêtrière às 2h06. Portanto, uma hora e quarenta minutos após o resgate. Vou me ater à minutagem dos eventos do acidente para poder explicar onde é que vemos os possíveis erros. A polícia chegou ao local da batida à 0h30. Dez minutos depois, chegou a equipe médica de resgate. Diana estava presa nas ferragens do carro. Do lado de fora, o médico injetou em suas veias morfina, soro fisiológico e drogas para manter a pressão e a frequência cardíaca. Ela foi removida do Mercedes-Benz à 1 hora da manhã. Nesse momento, teve a primeira parada cardíaca. Ainda na rua, foi reanimada pelo médico. À 1h18, foi colocada na ambulância, que deixou o local à 1h41. Durante a viagem de vinte e seis minutos para o hospital, a ambulância parou por cinco minutos, por ordem do médico, que constatou que a pressão de Diana havia caído dramaticamente. A ambulância viajou em velocidade baixa, por instrução do médico. Quais foram os problemas? Ele decidiu estabilizar a paciente no local, em vez de levá-la de imediato para o hospital. O trajeto entre o local do acidente e o hospital, àquela hora da noite, levaria menos de dez minutos. O que se esperava da equipe é que todas as manobras tivessem sido feitas dentro da ambulância e em movimento. Isso é o que nos Estados Unidos se chama de scoop and run: checar os batimentos cardíacos e correr para o hospital.

 

E por que o médico não fez isso? Eu chamo esse comportamento de síndrome de esmeraldite. Você não pode tratar um paciente, e apenas um, como uma esmeralda. Por ela ser a princesa Diana, ele quis fazer algo melhor do que já fazia. E, se tivesse feito a coisa como sempre fez, talvez a tivesse poupado. O problema é que ela estava com uma hemorragia interna que só poderia ser estancada em um hospital.

 

O médico sabia dessa hemorragia? Sim, porque externamente ela só tinha um ferimento superficial - um pequeno corte no supercílio -, e isso não podia ter causado a parada cardíaca. Ela estava sangrando por dentro, e a única forma de parar o sangramento era abrir o corpo, colocar o dedo em cima do buraco e costurá-lo. Mas houve pelo menos mais um problema. A comunicação entre a ambulância e o hospital falhou. Mesmo tendo conhecimento de que se tratava de um sangramento torácico, o médico não pediu ao hospital, pelo telefone, que um cirurgião especializado na área fosse chamado para compor a equipe que atenderia Diana. Quem teve de fazer a primeira cirurgia a que a princesa foi submetida naquela noite, uma toracotomia, foi um cirurgião-geral, que não é especializado em cirurgia torácica. A toracotomia é um rasgo que, no caso dela, ia da lateral direita do corpo até o meio do peito e que serve para localizar de onde o sangue está vindo. O rasgo foi feito logo abaixo do mamilo; em seguida, com um aparelho chamado finocheto, o médico forçou e afastou as costelas da princesa.

 

Aí também houve erro? Não exatamente. Ele abriu esse lado do peito, porque imaginava que o sangramento viesse do pulmão direito. Quando constatou que vinha, na verdade, do coração, portanto lá do outro lado, pediu a ajuda de um especialista. Diana havia sofrido dois rompimentos. A membrana que envolve o coração, chamada pericárdio, tinha se rasgado do lado direito e o coração, no lado esquerdo, havia se rasgado da veia pulmonar interior esquerda. Essa é a veia que leva sangue oxigenado do pulmão para o coração. Os dois rasgos se deram por causa da batida. Na hora do impacto, os órgãos internos de Diana, que estava sem cinto de segurança, se chocaram contra a parede do tórax e se romperam nesses dois lugares. Em consequência da veia rompida, o sangue vazava para a membrana que envolve o coração e, depois, escapava pelo buraco do pericárdio para o hemitórax direito, onde fica o pulmão direito. A quantidade de sangue que foi para esse pulmão era enorme, cerca de 5 litros. Para uma mulher de 36 anos, isso equivale a quase todo o sangue do seu corpo.

 

O que aconteceu em seguida? Finalmente, o doutor Alain Pavie chegou ao centro cirúrgico. E encontrou uma situação de guerra. Um dos médicos estava com a mão diretamente no coração de Diana, fazendo massagem, outro cuidava da transfusão de sangue, outro dava choques. Pavie completou a abertura do tórax dela, dessa vez até a outra lateral do corpo. Para chegar lá, serrou o esterno, osso que fica no meio do tórax. Quando atingiu o coração, viu que vinha de lá o sangramento e, rapidamente, fechou o buraco. Mas a princesa nunca mais voltou. Há especialistas que ainda veem uma terceira falha no procedimento. Diana poderia ter sido colocada em assistência circulatória, que é uma máquina de coração e pulmão artificial. Mas essa manobra só dá certo quando o paciente é posto na máquina menos de meia hora após a primeira parada cardíaca. Ou seja, só teria funcionado se o socorrista a tivesse levado para o hospital rapidamente.

 

Diana sofreu muito? Logo depois da batida, ela deve ter sentido uma dor violenta por causa dos rompimentos. Mas a dor durou apenas alguns minutos. Diana chegou a dizer algumas frases para o médico que a atendeu na rua (ela disse "O que aconteceu?" e "Meu Deus" diversas vezes). Quando começou a perder sangue, foi ficando inconsciente e a dor parou. Daí em diante, não sentiu mais nada.

 

Onde o senhor estava enquanto as duas operações eram feitas? No centro cirúrgico. O corpo médico se comportava com muito comedimento, mas, dos paramédicos para baixo, era um alvoroço só. Nos corredores do hospital só se ouvia "Lady Di. Lady Di" (fala com a pronúncia francesa, com o som de i no final de Di). Quando entrei na sala, chamado pelo doutor Pavie, os médicos já estavam desistindo das manobras de reanimação. Havia pelo menos vinte pessoas em cima da princesa. Em uma situação normal, elas seriam a metade disso. Os médicos saíam com uma aparência exausta, tirando as luvas encharcadas de sangue. Alguns tinham os olhos fundos e avermelhados de cansaço. Aquela maratona de duas horas (ela foi declarada morta às 4 da manhã) não teria durado mais de uma, não fosse ela uma pessoa famosa. Para mim e para outro colega, sobrou o serviço menor, o de fechar o corpo.

 

O que viu quando se aproximou? A sala media 64 metros quadrados e estava a uma temperatura de 19 graus. Pelo chão havia incontáveis curativos, aventais, tudo manchado de sangue. A princesa se encontrava deitada no centro, com lâmpadas ligadas em cima dela. Metade do tronco estava aberta e coberta de sangue. O corpo já estava gélido. Coloquei minhas luvas e costurei o peito dela. Quando já estava indo embora, uma enfermeira me pediu: “Doutor, coitada, costure o corte na testa dela". O rosto de Diana estava perfeito, só tinha mesmo aquele cortezinho, que eu fechei com pontos de cirurgia plástica, para não deixar cicatriz.

 

Enquanto o senhor fechava o corte, foi possível observar outros detalhes? Era uma mulher muito bonita. Tinha uma pele branquíssima e ainda estava com um pouco de maquiagem, uma sombra azulada nos olhos. Quando eu a vi, eles estavam entreabertos. Em algum momento, veio uma enfermeira e os fechou. Depois, ela foi colocada em um saco plástico e levada para a morgue.

 

Diana estava grávida, como acredita o pai de seu namorado, Dodi al Fayed, que também morreu no acidente? Durante os procedimentos, essa hipótese nem sequer foi aventada. Quando ela entrou no hospital, fizeram, evidentemente, um exame de sangue nela. Mas o teste que detecta gravidez não foi realizado, porque em uma urgência como essa isso não tem a menor importância. A não ser, é claro, que ela estivesse com uma gravidez avançada. E, no momento em que chegou ao hospital, ela não falou nada, porque estava em choque. Na época da tragédia, Lúcia Flecha de Lima (mulher de um ex-embaixador do Brasil na Inglaterra e amiga de Diana) me telefonou para perguntar a mesma coisa.

 

O senhor vê algum fundamento na tese de que houve uma conspiração para matar a princesa? Não. Ela teve o mais empenhado de todos os tratamentos. Mas sei que há muita gente que acredita nisso. Eu mesmo recebi cartas da Interpol, até 2008, querendo saber detalhes do que houve no hospital.

 

O senhor se emocionou com esse caso? Não. Eu não tinha relação alguma com Diana, ela não era minha paciente. Além disso, não tinha aquela euforia que muitas pessoas têm em relação à família real inglesa. Eu nem sabia que Diana estava na França.

 

Qual era o estado de espírito dos médicos quando se reuniram, depois que tudo acabou? Não houve essa reunião. Houve uma debandada. Os médicos tinham outros casos urgentes para cuidar. Além disso, precisavam fazer relatórios dos materiais que foram usados naquelas cirurgias. Tudo precisava ser justificado e reposto. Alain Pavie e outros dois se sentaram para fazer um relatório oficial, já que se tratava de um caso que teria um enorme desdobramento. No fundo, existia um sentimento de impotência, de que muito esforço fora gasto para, no fim, não adiantar nada.

 

O senhor conseguiu dormir naquela noite? Sim. Eu cheguei em casa já de manhã e liguei para o meu pai, que também é cirurgião cardiovascular. Nossa conversa foi médica; ele me perguntou o que havia sido feito, e eu expliquei. Em seguida, contei a história para minha companheira e fui dormir. Médicos cirurgiões estão sempre com sono, porque a gente trabalha muito. Cena vez, eu estava em um jantar e uns ladrões invadiram a festa. Fizeram todo mundo deitar no chão. Enquanto o dono da festa foi obrigado a sair para pegar o dinheiro, eu cheguei a cochilar. Minha mulher quase me matou.

 

Sua reação não mudou depois de ver toda a dimensão que o caso ganhou? Muito pouco. Naquela época, eu já havia operado 6000 pessoas. De lá para cá, operei outras 10000. Mas é claro que foi um momento marcante.

24 de jun de 2011

Festa macabra

Autores: Demétrio Magnoli¹ e Adriano Lucchesi²

 

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"Há uma percepção crescente de que a aritmética da Copa do Mundo é um tanto instável", escreveu o Times de Johannesburgo um mês depois do triunfo da Espanha nos campos sul-africanos. "Temos estádios em excesso para nosso próprio uso. Talvez devêssemos exportar estádios para o Brasil, que fará sua Copa do Mundo?". A constatação estava certa; a sugestão, errada. O Brasil, país do futebol, terá o mesmo problema que a África do Sul, país do rúgbi. Aqui, como lá, a festa macabra da Fifa é um sorvedouro implacável de recursos públicos.

 

Mafiosos usam a linguagem da máfia. Confrontado com evidências de corrupção na organização que dirige, Sepp Blatter avisou que tais "dificuldades" seriam solucionadas "dentro de nossa família". As rendas de radiodifusão e marketing da Fifa ultrapassaram os US$ 4 bilhões no ciclo quadrienal encerrado com a Copa da África do Sul. O navio pirata já se moveu para o Brasil, onde a Fifa articula com seus sócios a rapina seguinte.

 

O brasileiro João Havelange planejou a globalização do futebol, expandindo a Copa para 24 seleções, em 1982, e 32, em 1998. Blatter concluiu a transformação, rompendo a regra de rodízio de sedes entre Europa e América. Como constatou a Sports Industry Magazine, sob um processo milionário de licitação do direito de hospedagem, as ofertas nacionais assumiram "a forma de promessas de mais e mais pródigos novos estádios para os jogos e novos hotéis luxuosos para uso dos dirigentes da Fifa e de fãs endinheirados". A Copa é um roubo: as despesas são pagas com dinheiro público, de modo que a licitação "constitui, de fato, um esquema de extração de renda concebido para separar os contribuintes de seus tributos".

 

O saque decorre da conivência de governos em busca de prestígio e de negociantes em busca de oportunidades. Na Europa a rapinagem é circunscrita por uma cultura política menos permeável à corrupção e pela existência prévia de modernas infraestruturas hoteleiras, esportivas e de transportes. Por isso a Fifa seleciona seus próximos alvos segundo critérios oportunistas de vulnerabilidade. Encaixam-se no perfil África do Sul e Brasil, países emergentes que ambicionam desfilar no círculo central do mundo, assim como a semiautoritária Rússia, sede de 2018, e a monarquia absoluta do Qatar, que bateu a Grã-Bretanha na disputa por 2022.

 

Antes das Copas, consultores associados às redes mafiosas produzem radiosas profecias sobre os efeitos econômicos do evento. Depois, quando emergem os resultados efetivos, eles já estão entregues à fabricação de ilusões no porto seguinte. A África do Sul gastou US$ 4,9 bilhões em estádios e infraestruturas, que gerariam rendas imediatas de US$ 930 milhões derivadas do afluxo de 450 mil turistas, mas só arrecadou US$ 527 milhões dos 309 mil turistas que de fato entraram no país.

 

O verdadeiro legado positivo da Copa de 2010 foi a mudança de paradigma no sistema de transporte público urbano, pela introdução de ônibus, em corredores dedicados, e do Gautrain, trem rápido de conexão com o aeroporto de Johannesburgo. Os ônibus enfrentavam selvagem resistência dos sindicatos de operadores de peruas, superada pelo imperativo urgente do evento esportivo. O Gautrain serve exclusivamente à classe média, com meios para adquirir bilhetes cujos preços excluem a população pobre. Mas o argumento de que sem uma Copa, não se realizariam obras necessárias de mobilidade urbana equivale a uma confissão de incompetência da elite dirigente.

 

Eventos esportivos globais tendem a gerar ruínas urbanas, mesmo em países mais inclinados a zelar pelo interesse público. Japoneses e sul-coreanos ainda subsidiam a manutenção das arenas da Copa de 2002. As dívidas contraídas para as obras da Olimpíada de Atenas e da Eurocopa de 2004 aceleraram a marcha rumo à falência da Grécia e de Portugal. A África do Sul incinerou US$ 2 bilhões na construção e reforma das dez arenas da Copa. Todas, com exceção do Soccer City, de Johannesburgo, usado para jogos de rúgbi e shows, figuram hoje como monumentos inúteis, conservados pela injeção de dinheiro público. A Cidade do Cabo paga US$ 4,5 milhões ao ano pela manutenção da arena de Green Point, erguida ao custo fabuloso de US$ 650 milhões e usada apenas 12 vezes depois da Copa. Lá se desenrola um melancólico debate sobre a alternativa de demolição do icônico estádio, emoldurado pela magnífica Table Mountain.

 

O Brasil decidiu ultrapassar a África do Sul. Aqui, serão 12 arenas, a um custo convenientemente incerto, mas bastante superior aos dispêndios sul-africanos. As futuras ruínas já drenam vultosos recursos públicos, mal escondidos sob as rubricas de empréstimos do BNDES e subsídios estaduais e municipais. O governo paulista prometeu não queimar o dinheiro do povo na festa macabra da Fifa, mas o alcaide Gilberto Kassab assinou um cheque público de US$ 265 milhões destinado ao estádio do Corinthians. São 16 centros educacionais, para 80 mil estudantes, sacrificados por antecipação no altar de oferendas às máfias da Copa. O gesto de desprezo pelas necessidades verdadeiras dos contribuintes reproduz iniciativas semelhantes adotadas, Brasil afora, por governos estaduais e municipais.

 

Segundo a lógica perversa do neopatriotismo, a Copa é um artigo de valor só mensurável sob o prisma da restauração do "orgulho nacional". De fato, porém, a condição prévia para a Copa é a cessão temporária da soberania nacional à Fifa, que assume funções de governo interventor por meio do seu Comitê Local. O poder substituto, nomeado por Blatter, já obteve o compromisso federal de virtual abolição da Lei de Licitações e pressiona as autoridades locais pela revisão das regras de concorrência pública. Malemolentes, ao som dos acordes de um verde-amarelismo reminiscente da ditadura militar, cedemos os bens comuns à avidez dos piratas.

 

¹ Sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP

² Administrador de empresas e Mestre em Turismo Sustentável

 

Fonte: “Estado de S. Paulo”, edição de 23.06.2011

15 de jun de 2011

ALEPA: MP pede a prisão de três envolvidos em fraudes em licitações

Foram presos na manhã de hoje, a pedido do Ministério Público do Estado, Sandro Rogério Nogueira Sousa Matos e José Carlos Rodrigues de Sousa, que estão sendo investigados pela participação em esquema fraudulento de licitações na Assembleia Legislativa do Estado (Alepa). Sérgio Duboc, outro envolvido no esquema, ainda encontra-se foragido. A prisão preventiva foi requerida pelos promotores de justiça Arnaldo Célio da Costa Azevedo e Milton Luís Lobo Menezes, O mandado de prisão foi decretado pelo juiz Pedro Pinheiro Sotero, da vara de inquéritos e medidas cautelares.

 

Segundo os promotores de justiça a preventiva de Sandro Rogério (membro da comissão de licitação da Alepa), José Carlos ((sócio da Croc Tapioca) e Sérgio Duboc (ex-diretor do Detran) foi requerida em virtude dos investigados terem cometido de crime de falsificação de documentos públicos, corrupção e outras fraudes.

 

Além disso, ficou comprovado, após apreensão de um gravador digital na residência de José Carlos, na última operação de busca e apreensão, que havia um conluio entre os três que tiveram mandado de prisão expedido, para tentar ludibriar as investigações, combinando depoimentos.

 

Nas gravações, Sandro Rogério diz a José Carlos como esse deve proceder nos depoimentos e propõe que este último assuma a culpa, dizendo que exercia influência junto às empresas concorrentes e por isso vencia as licitações. Em troca o grupo responsável pelas fraudes pagaria os custos do advogado de José Carlos.

 

Em outros trechos relevantes da gravação José Carlos afirma ter provas suficientes para incriminar Daura Hage, no caso Alepa, inclusive envolvendo um senador da República. Mas que ele (José Carlos) poderia calar-se caso os problemas com a JC Rodrigues fossem resolvidos, insinuando que precisa de muito dinheiro para inserir-se no mercado novamente.

 

Com isso, ficou caracterizado que havia uma clara intenção dos envolvidos em apagar vestígios do que tinham feito e escapar da justiça. “Diante do desenrolar da investigação, percebe-se que os representados agem ilicitamente na cooptação de testemunhas tentando prejudicar as investigações, colocando em risco a ordem social, futura instrução criminal e por consequência, aplicação da lei penal”, concluiu o juiz Pedro Sotero em sua decisão.

 

A operação de hoje, denominada Nagasaki, é continuação da operação Hiroshima, deflagrada no dia 19 de abril, que apreendeu documentos e dinheiro na residência de doze pessoas investigadas de envolvimento em fraudes na folha de pagamento da Alepa. Na mesma ocasião, foram apreendidos no gabinete de Sérgio Duboc, à época diretor do Detran, processos licitatórios da Casa Legislativa no tempo em que este trabalhou lá em gestões anteriores.

 

A apreensão desses processos deslanchou mais uma linha de investigação, que culminou na descoberta de uma verdadeira quadrilha atuando para favorecer empresas ligadas a Daura Irene Xavier Hage em processos licitatórios, cujos proprietários são seus parentes mais próximos. Com isso, apareceram nomes de empresas como Croc Tapioca, Real Metais e Serviços Técnicos, With Gomes Comercial e Serviços, JW Comércio de Materiais de Construção, entre outras.

 

Os envolvidos que tiveram a prisão preventiva decretada serão encaminhados para o sistema carcerário. O Sandro Rogério foi encaminhado para a Prisão Estadual Metropolitana I, em Marituba, e José Carlos Rodrigues para o Centro de Triagem do Coqueiro. Os Promotores de Justiça Arnaldo Azevedo e Milton Menezes darão entrevista coletiva às 12h.

 

Fonte: Edson Gillet/Edyr Falcão – ASCOM MPE

13 de jun de 2011

Carta de Dilma Rousseff a Fernando Henrique Cardoso por ocasião dos seus 80 anos

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A fonte da letra usada na postagem é denominada “Segoe Print”. Não é a letra da presidente Dilma Rousseff.

Cidade mais violenta do país vive explosão populacional

Fonte: jornal “O Estado de S. Paulo”, edição de 12.06.2011

Autor: Daniel Bramatti

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Pela linha férrea entre Parauapebas e o porto de São Luís, no Maranhão, o minério de ferro se esvai do Pará e os imigrantes chegam. Três noites por semana, centenas deles desembarcam em Marabá, a cidade mais violenta do Brasil, mas também objeto dos sonhos dos recém-chegados, atraídos pela expectativa de empregos em uma siderúrgica de US$ 3,2 bilhões e outros empreendimentos.

 

A onda migratória faz com que Marabá, principal município do sudeste paraense, passe pela mais radical transformação urbana em andamento no País: de 2009 até 2014, sua população terá um incremento de 50% e chegará a 306 mil pessoas, segundo estudo da própria Vale, controladora da siderúrgica e até do trem que despeja os novos moradores. Já a prefeitura, que sonha fazer da cidade a capital do futuro Estado de Carajás, prevê que o número de habitantes dobrará no mesmo período.

 

O crescimento é desordenado, para dizer o mínimo. Nos últimos anos, dezenas de ocupações irregulares - nove delas com mais de 11 mil famílias - brotaram nos três principais setores da cidade, cujo desenho segue as curvas dos Rios Tocantins e Itacaiúnas. Nos bairros regularizados, os aluguéis mais que dobraram.

 

Os 30 mil empregos diretos e indiretos relacionados à siderúrgica ainda são uma miragem - a obra está em fase de terraplanagem e ocupa algumas centenas de operários. Além disso, oito em cada dez imigrantes não têm a qualificação mínima necessária para ocupar as vagas que serão abertas, segundo estimativa da prefeitura.

 

Não há bairro que esteja livre do tráfico e do consumo de crack e óxi, drogas derivadas da pasta de cocaína vinda da Colômbia, de acordo com a polícia. Disputas por território, acertos de contas e latrocínios alimentam um círculo vicioso de vinganças e crimes por encomenda. Entre 2002 e 2009, foram 1.408 assassinatos.

 

Marabá e outras cidades do chamado Polígono da Violência - região do sudeste paraense com altos índices de homicídios - são um dos alvos da Operação Em Defesa da Vida, ação emergencial do governo federal que congrega militares, Força Nacional de Segurança, Polícia Federal e outros órgãos.

 

Loteamento clandestino. "O metro quadrado daqui já está valendo mais do que o de bairros estabelecidos há mais de 15 anos", afirma Josavias Saraiva, um dos líderes comunitários da invasão conhecida como Jardim da Paz - nome alvo constante de ironias, já que cinco dirigentes da associação de moradores foram assassinados em quatro anos.

 

À frente de Saraiva está um mapa do loteamento, que a comunidade tenta regularizar - passo necessário para a chegada de benfeitorias como saneamento e escolas. "Veja que ficamos quase no centro da cidade", diz ele, indicando com os dedos que a Rodovia Transamazônica está a cerca de 800 metros. Em Marabá, a Transamazônica é, na prática, uma avenida - a cidade se desenvolveu em torno dela. "E aqui será a Alpa", completa Saraiva, referindo-se à Aços Laminados do Pará, a siderúrgica em construção a 14 quilômetros dali, nas margens da rodovia.

 

O Jardim da Paz foi criado à força, quando cerca de 450 famílias invadiram um remanescente de fazenda nas margens do Rio Itacaiúnas. Em 2010, um censo feito pelos próprios moradores contabilizou 2.446 famílias no local.

 

Questionado sobre a origem desses habitantes, Saraiva sorri. "Alguém aí não é maranhense?", pergunta, dirigindo-se a uma fila na associação de moradores. Ninguém se manifesta. "Aqui os imigrantes são uns 90%", diz ele.

 

"A cidade recebe hoje cerca de 250 novos moradores por dia", afirma o delegado Alberto Teixeira, superintendente da Polícia Civil no sudeste do Pará. Ele próprio um recém-chegado - está desde fevereiro em Marabá -, Teixeira não hesita ao relacionar os altos índices de criminalidade ao crescimento desordenado. "Não há empregos para todas essas pessoas. Quem acolhe os jovens é o tráfico."

 

A taxa anual de homicídios em Marabá chegou a 133 por 100 mil habitantes em 2009, segundo o Sistema de Informação de Mortalidade, do Ministério da Saúde. É a taxa mais alta do País. Em Honduras, o país mais violento do mundo, o índice é de cerca de 60/100 mil.

 

A Comissão Pastoral da Terra (CPT), que dá assessoria jurídica para os moradores de ocupações irregulares, vê com preocupação a "propaganda oficial" da onda de investimentos em Marabá.

"Nos municípios aqui em volta, não se fala de outra coisa", afirma José Batista Afonso, advogado da CPT. "Todo mundo acha que vai conseguir emprego, mas a maioria só tem experiência na roça."

 

Apartamento novo custa até R$ 2 milhões

 

Enquanto os imigrantes pobres de Marabá tentam se acomodar em ocupações e loteamentos clandestinos, a classe média e os ricos buscam refúgio em condomínios fechados e edifícios de luxo.

 

A cidade, que praticamente não tem prédios, começa a se preparar para uma onda de verticalização. Símbolo dessa nova fase é o edifício Crystal Tower, ainda em fase de projeto. São 40 apartamentos de 300 metros quadrados. Cada unidade custa R$ 1,3 milhão - o preço salta para R$ 2 milhões no caso das duas coberturas duplex.

 

Segundo Ângela Pereira, diretora da imobiliária Chão & Teto, cerca de 30% dos apartamentos foram vendidos nas primeiras duas semanas após o lançamento, e a expectativa é comercializar todos até agosto. "Além dos moradores que operam no setor madeireiro, siderúrgico, agropecuária, mineração, indústria e serviços, empresários de todas as regiões do Brasil estão se instalando em Marabá para expansão de seus negócios. Todos buscam uma qualidade de vida e maior segurança."

 

Outros prédios estão a caminho. "A verticalização é uma tendência na maioria das cidades por vários fatores, entre eles proximidade com infraestrutura de serviços e comércio, ventilação, vista e segurança", explicou Ângela. "Marabá não será diferente. Além de apresentar altos índices de violência, é uma cidade muito quente."

 

No percurso de 14 quilômetros entre a cidade e a Aços Laminados do Pará, siderúrgica de grande porte que a Vale está construindo, há dois condomínios fechados em fase de instalação. Outros "bairros novos" são anunciados em outdoors e na televisão.

 

Em 2012, Marabá deve ganhar seu primeiro shopping center.

Governo pressionou vale por siderúrgica

A instalação da siderúrgica da Vale em Marabá é resultado de uma queda de braço da empresa com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

 

Roger Agnelli, ex-presidente da Vale, foi pressionado a investir no processamento do minério de ferro da mina de Carajás, no sul do Pará, em vez de dar prioridade à exportação de matéria-prima para a China.

 

No lançamento da obra, em junho do ano passado, Agnelli fez um discurso em que apontou a "marca" de Lula no projeto.

 

O governo exerce influência na empresa porque, entre seus sócios, estão fundos de pensão de empresas estatais, na prática controlados pelo Palácio do Planalto. Os desentendimentos entre governo e Agnelli acabaram levando à substituição do executivo por Murilo Ferreira, em abril.

 

A siderúrgica, um investimento de US$ 3,2 bilhões, deve começar a operar em 2014. A empresa estima que terá 16 mil funcionários na região e que outros 14 mil empregos serão gerados de forma indireta.

 

Gráfico: “O Estado de São Paulo”

6 de jun de 2011

Nota dos promotores que investigam as fraudes na ALEPA

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“Considerando matéria publicada no Jornal O Liberal no dia 05 de junho de 2011, sob o titulo em manchete de primeira página “Promotores pedem afastamento da cúpula do Ministério Público”, os Promotores de Justiça que efetivamente estão à frente das investigações em relação às irregularidades ocorridas na Assembleia Legislativa do Estado do Pará, Arnaldo Célio da Costa Azevedo, Nelson Pereira Medrado, Milton Luís Lobo de Menezes e Gilberto Valente Martins, em nome de suas autonomias e independências funcionais, passam a esclarecer o seguinte:

 

1 – Que não há e nunca houve qualquer interesse político visando “amarrar” as investigações, com a participação do ex-Procurador-Geral de Justiça, Geraldo Rocha, ou de qualquer outra autoridade do Ministério Público, ressaltando-se que desde que o Dr. Geraldo Rocha assumiu a coordenação do GEPROC, vem dando irrestrito apoio as investigações.

 

2 – A notícia, com o teor apresentado pelo suposto grupo anônimo de Promotores, carece de qualquer credibilidade não só pelo anonimato, mas principalmente pelo conteúdo inverídico das informações contidas no suposto documento apresentado na Procuradoria Geral da República no Pará;

 

3 – No que se refere a Chefia do Ministério Público, registramos que a mesma vem prestando total e irrestrito apoio as investigações, na pessoa do Procurador-Geral de Justiça, Dr. Antonio Eduardo Barleta de Almeida, que se mantêm totalmente isento em relação as mesmas, sendo absolutamente inverídicas as informações e as insinuações de que o mesmo estaria exercendo qualquer influência na condução das investigações;

 

4 – Com relação a notícia de que o investigado Domingos Juvenil teve seu depoimento adiado para o dia 06.06.2011, o adiamento se deu por deliberação do Promotor de Justiça Arnaldo Azevedo devido ao fato de que ainda precisava analisar documentação apreendida, conforme foi justificado na data em que o mesmo seria ouvido, fato divulgado amplamente, inclusive pelo próprio jornal O Liberal, edição do dia 31.05.2011.

 

5 – Registramos que o suposto “grupo” ou “segmento” que se intitula descontente com a atuação dos Órgãos Superiores do Ministério Público, dizendo-se “preocupado com a credibilidade da Instituição e em garantir a honestidade, a transparência, a imparcialidade e a defesa dos direitos da sociedade”, se realmente existe, deveria se identificar e procurar os canais competentes para serem apuradas as devidas responsabilidades.

 

6 - Por fim, demonstramos nosso repúdio a qualquer tentativa de desarticular os Promotores de Justiça que estão à frente das investigações e que não será tolerada qualquer tentativa de desacreditar, perante a sociedade e a opinião pública, o trabalho do Ministério Público Paraense.

 

Belém, 06 de junho de 2011

 

ARNALDO CÉLIO DA COSTA AZEVEDO

NELSON PEREIRA MEDRADO

MILTON LUIS LOBO DE MENEZES

GILBERTO VALENTE MARTINS”