26 de abr de 2012

Entrevista com Mário Soares

soares

Em que o atual governo está distante dos ideais do 25 de Abril?

Estão destruindo o Sistema Nacional de Saúde, criando problemas sérios ao operariado, às pessoas e aos sindicatos. E é um governo que se preocupa muito com a austeridade, olhando sobretudo para números e dinheiro e descuidando, ignorando completamente as pessoas.

O desemprego chegou a 14% mas pode subir mais e há pessoas que estão até passando fome. Isto é um fato e está na lógica contrária do que foi a política depois do 25 de abril de 1974, tínhamos um pacto social, lançamos o Serviço Nacional de Saúde e tratamos os sindicatos sempre com respeito absoluto.

Os militares de abril se portaram duas vezes muito bem, porque fizeram a revolução, cumpriram a promessa de realizar as eleições e abandonaram o poder. Depois disso houve uma tentativa dos comunistas, da extrema-esquerda radical de fazer de Portugal uma Cuba europeia e eles se opuseram pela segunda vez e impediram uma guerra civil. E eles tomaram esta posição (de não participar das manifestações, anunciada pela Associação 25 de Abril na segunda-feira) porque acham que não faz sentido ir a uma cerimônia em que os oradores e as pessoas estão lá de uma maneira geral nos sentidos do atual governo. E eu me associei a eles porque sou amigo deles. Sou solidário com a posição deles.

A mobilização cívica em Portugal de hoje pode levar a um levante semelhante ao de 38 anos atrás, restabelecendo esses ideais?

Neste momento há um grande descontentamento na sociedade portuguesa, mas há uma posição pacífica, eu espero que continue a ser pacífica. Mas as pessoas estão protestando e acham que vamos mal. No fundo, é um problema que transcende Portugal, é um problema europeu. É o mesmo que está acontecendo na França, o mesmo que está acontecendo em outros países.

E o senhor acha que há mobilização cívica suficiente para inverter essa lógica que causa tanto descontentamento?

Eu penso que não é uma coisa imediata, mas que daqui a um tempo isso vai acontecer.

A carta da Associação 25 de Abril considera que Portugal se tornou hoje um protetorado dentro da União Europeia. O senhora acredita que Portugal perdeu soberania a esse ponto?

É evidente que perdeu soberania. Não foi só Portugal, foram Espanha, Itália, tudo. Neste momento, nós temos um problema na Europa muito sério. A Europa ou muda de paradigma ou vai entrar em uma grande decadência. Não é um problema só português, é de toda a Europa.

Entrevista publicada no Portal “O Globo”

17 de abr de 2012

Nota da Delta à imprensa

“NOTA À IMPRENSA”

O blog do jornalista Mino Pedrosa divulgou no domingo 15 de maio a edição parcial de um áudio gravado clandestinamente em dezembro de 2008 durante reunião na qual se discutia a cisão societária entre as empresas Delta Construção e Sygma Engenharia.

A Delta Construção tem a dizer sobre isso:

1. O trecho é parte editada de uma longa discussão em que os controladores das duas empresas, Delta e Sygma, discutiam em dezembro de 2008 os termos de uma dissociação. Um dos antigos proprietários da Sygma que estão sendo processados pelos controladores da Delta Construção, gravou a longa discussão e pinçou aquele trecho a fim de promover chantagens negociais contra a empresa.

2. O áudio não representa o que a Delta Construção e seus controladores pensam. Antes de tudo, o que é dito ali tem os verbos flexionados no condicional, como um exemplo hipotético, e foi pronunciado num tom claro de bravata.

3. Tanto a Delta Construção como todos os seus acionistas controladores, diretores e executivos têm profundo respeito pelo Congresso Nacional, pelos congressistas, pelas instituições republicanas e pelo Poder Público.

4. Fernando Cavendish Soares reafirma, por sua vez, que o que está dito naquele áudio gravado clandestinamente em dezembro de 2008 não expressa a sua opinião e foi pronunciado em tom de bravata em meio a uma discussão entre ex-sócios que desde então se enfrentam na Justiça.

Ana Faraco

Conselho de Administração

Delta Construção”

12 de abr de 2012

Gravações da PF indicam pagamento de propina no DF

agnelo

Matéria de RUBENS VALENTE, LUCAS FERRAZ, JOSÉ ERNESTO CREDENDIO E ANDREZA MATAIS, publicada na edição de 12.04.2012 no jornal “Folha de S. Paulo”

Diálogos telefônicos interceptados pela Polícia Federal sugerem que a construtora Delta, uma das maiores do país, pagou propinas para receber pagamentos por serviços prestados ao governo do Distrito Federal.

As conversas foram gravadas com autorização judicial durante as investigações sobre os negócios do empresário Carlos Cachoeira, preso em fevereiro sob a acusação de explorar jogos ilegais.

O Congresso decidiu criar nesta semana uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as ligações de Cachoeira com políticos em Goiás, no Distrito Federal e no Rio de Janeiro.

A construtora Delta é a empresa que domina o serviço de coleta de lixo no Distrito Federal. O contrato mais recente foi assinado em 2010, antes da posse do governador Agnelo Queiroz (PT).

Os diálogos obtidos pela Folha mostram um dos operadores de Cachoeira discutindo com assessores de Agnelo e um executivo da construtora dificuldades que ela tinha para receber pagamentos do governo.

Numa conversa interceptada em abril de 2011, um assessor de Agnelo, Marcelo Lopes, afirmou que o governador instruíra sua equipe a "cuidar da Delta" para "não dar problema no lixo".

Do outro lado da linha estava o sargento da Aeronáutica Idalberto Araujo, o Dadá, apontado pela polícia como principal operador de Cachoeira. Ele também foi preso junto com o empresário.

Em outro diálogo interceptado pela PF na mesma época, Dadá disse a Marcelo que a Delta "não vai dar um real para ninguém", por causa da demora para receber do governo os pagamentos pelos serviços de coleta de lixo.

O então diretor da Delta na região Centro-Oeste, Claudio Abreu, avisou o operador de Cachoeira que faria isso em março de 2011. "Não dá mais, rapaz, estamos sem receber, não cai dinheiro", disse.

O executivo ameaçou procurar o próprio Agnelo para tratar do assunto. "Pode falar que o governador mandou me chamar. Eu vou ter que falar diretamente com o governador, cara", disse Abreu. Dadá respondeu: "Tranquilo, vou falar direitinho".

Dadá voltou a discutir a situação com Marcelo logo depois. O assessor do governador recomendou que agisse com cautela para evitar que a situação da Delta piorasse. "Os caras podem travar a terceira fatura", explicou.

As conversas gravadas pela polícia mostram também que Abreu e Dadá trabalharam para nomear pessoas de sua confiança nas áreas do governo do DF responsáveis pelo gerenciamento dos contratos do lixo.

A construtora Delta afirma desconhecer o pagamento de propinas no Distrito Federal. A empresa demitiu Abreu em março deste ano e diz que não sabia do seu envolvimento com o grupo de Cachoeira.

A PF sugere que um dos diálogos interceptados indica que em algum momento o próprio Agnelo pediu para conversar com Cachoeira. Dadá diz a Cachoeira que o "zero-um", o "magrão", quer falar com ele.

No relatório em que a conversa foi transcrita, a PF afirma que o diálogo "dá a entender que se trata de Agnelo Queiroz".

> Governador diz que acusações são 'fantasiosas'

O governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), chamou de "fantasiosas" as tentativas de envolver ele e seu governo no escândalo de Carlinhos Cachoeira.

"[É] mais uma tentativa desesperada de arrastar o meu partido para esse escândalo."

Sobre o áudio da Polícia Federal em que os investigadores sugerem que o "01" citado no grampo seria o governador, Agnelo disse tratar-se de uma "fantasia".

"Dizer que esse tal 01 sou eu é tão insustentável quanto dizer que o 01 é o papa."

Agnelo defendeu a instalação da CPI no Congresso.

O secretário de governo do DF, Paulo Tadeu, disse que não tratou de nomeações. Ele reconheceu ter encontrado o representante da Delta uma vez para tratar do contrato da empresa com o governo.

Até a conclusão desta edição, o governo não comentou a participação da Delta na campanha de Agnelo.

A Delta disse "desconhecer" o suposto pagamento de propina à cúpula do governo.

Sobre a suspeita de caixa dois, a Delta disse que as doações foram declaradas.

Em relação à coleta do lixo em Brasília, a empresa afirmou que assumiu o serviço por decisão judicial.

A Delta reconheceu que apoiou Idalberto Matias de Araújo, o Dadá, na condição de diretor da Associação dos Catadores de Limpeza Urbana do DF, mas que ele nunca trabalhou na empresa.

7 de abr de 2012

PF vê elo entre construtora e Cachoeira

Reportagem de FILIPE COUTINHO, FERNANDO MELLO e LEANDRO COLON, publicada na “Folha de S. Paulo”, edição de 07.04.2012.

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A Polícia Federal levantou suspeitas de que a empreiteira Delta, maior recebedora de recursos do governo federal nos últimos três anos, fez parte do esquema montado pelo grupo de Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, acusado de comandar uma rede de jogo ilegal.

Segundo relatórios de inteligência da PF na Operação Monte Carlo, há indícios "de que a maior parte dos valores que 'entram' nas contas de empresas fantasmas [ligadas ao grupo do empresário] é oriunda da empresa Delta".

Em relatório de novembro, a PF diz ter levantado "indícios de que parte de recursos da empresa Delta transferidos para empresas fantasmas são destinados a pessoas físicas e jurídicas vinculadas direta ou indiretamente à estrutura do jogo de azar".

De acordo com as investigações, foi possível confirmar sociedade "secreta" entre Cachoeira e Claudio Abreu, então diretor regional do Centro Oeste da empreiteira, afastado depois de ser denunciado pelo Ministério Público Federal. Ninguém mais da Delta foi denunciado.

Um depósito bancário rastreado, segundo a PF, seria "possivelmente referente ao retorno dos pagamentos superfaturados que a empresa Delta ganha com os seus contratos com o poder público".

A Delta faturou, desde 2004, R$ 3,6 bilhões do governo federal. A empresa atua em diversas áreas, de construção a energia, passando pela coleta de lixo.

No Distrito Federal, o principal contrato é de coleta de lixo - recebeu R$ 140 milhões nos últimos três anos.

O nome de Claudio Monteiro, chefe de gabinete do governador Agnelo Queiroz (PT), é citado em gravação da PF. Monteiro admite que recebeu aliados de Cachoeira para tratar de contratos da Delta: as reuniões foram com Claudio Abreu e o sargento aposentado Idalberto Matias, o Dadá, que teria se apresentado como presidente da associação de varredores.

NEGÓCIOS PRIVADOS

A PF transcreve dezenas de diálogos em que o nome da Delta aparece. Segundo a investigação, Cachoeira marcou encontros com informantes no prédio da empresa em Goiânia -a Delta recebeu mais de R$ 100 milhões do governo goiano desde 2010.

Em 14 de junho de 2011, Cachoeira telefonou para um policial federal apontado como seu informante para saber sobre possíveis batidas. O empresário pergunta: "E com a Delta, alguma coisa?".

No dia 8, um dos aliados de Cachoeira, Gleyb Ferreira, conversava com o policial federal Deuselino Valadares, também denunciado.

"Não precisa mexer com nada público, mexer só com empresa privada, que é melhor, acabar com esses contratos da empresa pública, como governo e tal, largar esses trem tudo [sic] que só dá problema", disse o policial.

Delta afirma que afastou ex-diretor e faz auditoria

A empreiteira Delta afirma que "está sendo exposta injustamente e tendo comprometida a reputação de seu bom nome corporativo em razão da profundidade e da extensão da relação pessoal de um ex-diretor regional da empresa com uma personagem do meio empresarial que ora é investigada pelo Ministério Público Federal".

A Delta informou que afastou o engenheiro Cláudio Abreu e instalou uma auditoria no escritório regional.

A Folha não conseguiu contato com o advogado de Claudio Abreu. A defesa de Carlinhos Cachoeira afirma que não fará comentários.

A defesa de Idalberto Matias não ligou de volta. A Folha não localizou Gleyb Ferreira e Deuselino Valadares.

4 de abr de 2012

As linhas gerais do pacote de estímulo à indústria

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DESONERAÇÃO E TRIBUTÁRIO

O governo anunciou que vai desonerar a folha de pagamento de 15 setores, em uma renúncia fiscal que deve chegar a R$ 7,2 bilhões por ano. Com a medida fica prevista a eliminação da contribuição previdenciária patronal de 20% sobre a folha de pagamento. A cobrança será substituída por taxas que vão de 1% a 2,5% sobre o faturamento da empresa. A desoneração em 2012 pode chegar a R$ 4,9 bilhões.

CÂMBIO

O governo pretende manter as ações para conter a desvalorização do dólar, que diminui a competitividade da indústria brasileira devido à valorização do real.

Além da compra de dólares o país também tem utilizado o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) como instrumento para barrar a entrada desordenada de dólares no Brasil. O ministro Guido Mantega (Fazenda) também aposta na redução da taxa de juros básica para conter o câmbio, pois isso reduz a diferença entre as taxas cobradas fora do país e internamente.

EXPORTAÇÃO

Haverá uma ampliação no número de empresas exportadoras que serão isentas do pagamento de IPI, PIS e Cofins na aquisição de insumos. Uma empresa passará a ser enquadrada como "preponderantemente exportadora" quando exportar 50% da sua produção.

Hoje, para receber o enquadramento e a desoneração, a empresa deve exportar 60% da sua produção, para o caso do setor intensivo (que emprega muita gente, como o setor automotivo e têxtil), e 70% no caso do setor não intensivo.

Haverá ainda a ampliação dos valores e prazos do Proex (Programa de Financiamento Para a Exportação). O valor total do programa vai passar a ser de R$ 3,1 bilhões, antes era de R$ 1,24 bilhão. As empresas terão 15 anos para pagar o financiamento, a juros mais baixos. O prazo atual é de 10 anos.

DEFESA COMERCIAL

Algumas medidas pretendem reduzir o custo do financiamento do comércio exterior, com mais financiamento a custos reduzidos. Dentro do novo pacote, que deve somar R$ 20 bilhões em desonerações e financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), está ainda a desoneração de redes de telecomunicações, a renovação do programa "Um computador por aluno" e a retomada do programa para uma indústria de semicondutores no país.

Como parte das medidas de estímulo ao investimento do governo federal, o BNDES anunciou uma redução "significativa do custo" de financiamentos para máquinas e equipamentos, além de ampliar prazos e aumentar a participação do banco nos projetos.

O banco passou ainda a fornecer mais acesso à linhas de capital de giro --que poderão ser contratadas por grandes empresas, até o limite de R$ 50 milhões, com juros reduzidos para até 9% ao ano. Antes, a linha era exclusiva à micro e pequenas empresas.

O BNDES estendeu ainda o PSI (Programa de Sustentação do Investimento), que financia máquinas e equipamentos, até dezembro de 2013. As taxas foram reduzidas de de 8,7% ao ano para 7,3%, no caso de grandes empresas, e de 6,5% para 5,5%, para micro, pequenas e médias empresas.

Para estimular a indústria automobilística, as taxas para compra de ônibus e caminhões também caíram --de 10% para 7,7%. O prazo máximo de pagamento subiu de 96 meses para 120 meses. O BNDES financiará de 90% (grandes empresas) até 100% do valor do bem (pequenas e médias).

Haverá ainda o estímulo a obras de infraestrutura portuária e ferroviária.

Fonte: Folha.com