25 de jan de 2014

Entrevista com o doutor James Holston sobre o “rolezinho”

A entrevista concedida a Eleonora de Lucena, publicada na Folha de S.Paulo em 19.01.2014.

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Antropólogo estuda a periferia de SP desde os anos 80 e diz que reação da PM e dos shoppings aos 'rolês' foi exagerada

Como os protestos de junho passado, os "rolezinhos" são manifestações de uma cidadania insurgente cujas raízes estão na luta pelo espaço urbano que ocorre há décadas no Brasil. A análise é do antropólogo James Holston, professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA)..

Pesquisador da periferia paulistana desde os anos 1980, ele avalia que a politização do movimento foi provocada pela repressão exagerada e pouco inteligente.

Autor de "Cidadania Insurgente" (Companhia das Letras, 2013), Holston tem ligações familiares com o Brasil e passa temporadas em São Paulo. Nascido em Nova York, estudou também filosofia e arquitetura.

Como o sr. avalia os "rolezinhos"?

Os "rolezinhos" existem há tempos nas periferias. Frequentei muito o shopping Aricanduva por causa de minhas pesquisas na zona leste. O shopping é a praia do paulistano. Essa juventude não está excluída dos shoppings. Estão entre os melhores fregueses.

A diferença foi o número de pessoas. Deu medo nos lojistas.

Passear, brincar, paquerar nos shoppings se politizou agora por causa da repressão policial e da reação dos donos de shoppings. Reprimir nos primeiros "rolezinhos" no fim de dezembro foi uma reação exagerada, pouco inteligente e pouco ágil. O "rolezinho" nunca teve esse aspecto politizado. Agora virou movimento, uma expressão de conquista de espaço.

O sr. estudou os movimentos nas periferias de São Paulo no século passado. Quais são as diferenças em relação ao que ocorre hoje?

Por décadas, o coração da politização das classes mais humildes do Brasil foi conquistar o espaço, o terreno da casa, o bairro, a autoconstrução, a luta. As classes altas também ocupam, conquistam, defendem, segregam seus espaços. As classes trabalhadoras fazem isso conquistando novos direitos de cidadania. Isso muitas vezes afronta as classes médias.

Há em São Paulo uma tensão em torno do espaço que há anos não existia. Antes as classes dominantes dominavam completamente. Agora, não. As classes mais humildes têm noção do direito de ocupar, de viver, de circular.

Como o sr. explica o funk ostentação, espécie de trilha sonora dos "rolezinhos"?

É uma releitura paulistana do funk carioca, passando pela Baixada Santista. A pauta mudou da criminalidade para o consumo.

Essa ideia de consumismo exacerbado não se choca com a herança política de luta por espaço, que era mais coletiva?

Claro. O consumo na autoconstrução nos bairros nos anos 1970, 1980, 1990 era mais coletivo: todo mundo trabalhando. Esse consumo de hoje é também de autoconstrução, mas personalista. Do ponto de vista político, significa o triunfo de um capitalismo deslumbrado, como ocorre no Brasil nos últimos 20 anos em todas as classes.

E o que mostra a reação aos "rolezinhos"?

As elites sempre reprimiram as manifestações populares por conquista de espaço. A mensagem é de que o pobre tem que saber o seu lugar; pode circular humildemente, fazendo o seu serviço. Mas, se circula com ostentação, mostrando que é dono de sua própria vida, ofende e afronta a elite brasileira.

Há ligação com as manifestações de junho?

Há uma articulação politizada nos dois casos. A polícia tem que assumir uma culpa muito grande, pois teve uma reação exagerada. Os "rolezinhos" são continuidade dos movimentos de junho, pois têm a ver com ocupação de espaço, com circulação.

Há diferenças; não há homogeneidade. Os "rolezinhos" são mais focados no consumo, na produção cultural, têm menos organização política. Mas podem vir a ter.

Quais os reflexos políticos dos "rolezinhos"? Eles vão crescer ou murchar?

É difícil prever. A rapaziada dos "rolezinhos" não quer ser politizada em demasia. Querem voltar à praia do shopping, para paquerar, zoar. Não quer dizer que não possam evoluir, ou outros grupos possam adotar a tática. Acho que isso vai acontecer. Vai ser um ano quente e deveria ser. Porque as reivindicações de junho não foram atendidas e também não sumiram. O que vai acontecer com toda essa energia? Com a chegada da Copa, vai esquentar.

O gigante acordou?

Muitos disseram isso. Outros, que a periferia nunca dormiu. A cidadania insurgente está sempre presente. Esquenta e esfria dependendo de circunstâncias impossíveis de prever. O Brasil vibra nos últimos 50 anos de cidadania insurgente. É uma coisa ótima para sacudir uma sociedade de muita desigualdade.

5 de jan de 2014

Entrevista com o economista Luiz Gonzaga Belluzzo

Entrevista concedida à jornalista ELEONORA DE LUCENA, publicada na “Folha de S. Paulo”, em 29.12.13

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Folha - Como vai o governo Dilma?

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo - Dilma se deu conta de que os efeitos da crise sobre o Brasil foram maiores do que se podia pensar e duraram mais tempo. Nos metemos numa camisa de 11 varas, num enrosco. O investimento industrial foi afetado pela manutenção da taxa de câmbio valorizada. O que a maioria dos industriais fez? Eles se tornaram importadores. A indústria brasileira ficou nanica. O Brasil vai ter que corrigir a política cambial.

É por isso que o governo está fracassando na economia?

Não acho que esteja fracassando. O crescimento é ruim, comparável ao de FHC, que foi péssimo. Há esse enrosco de câmbio, crescimento e juros. O núcleo do enrosco é o desalinhamento do câmbio.

O Brasil não poderia ter outra posição no câmbio?

Tem custos. Temos uma defasagem grande, que calculo em 30%. Há o custo do impacto na inflação.

Onde está o desenvolvimentismo de Dilma?

A situação é apresentada como fracasso do desenvolvimentismo. Não sei direito de que desenvolvimentismo falam. Desenvolvimentismo agora é o país ficar em condições de competir, fazer acordos. O centro da turbulência está na inadequação das exportações e importações na sustentação do crescimento. Basicamente o crescimento é baixo porque não há dinamismo na indústria.

O crescimento é baixo porque as medidas de Dilma não são desenvolvimentistas?

A Dilma é desenvolvimentista, só que não está conseguindo se livrar de constrangimentos que vêm dos anos 1970. Desenvolvimentismo é uma palavra ambígua. Alguns falam nele pensando nos anos 1950, 1960. Esquece. A configuração da economia mundial é outra. É preciso procurar outros caminhos. Um deles é o próprio agronegócio, que pode ser estimulado a mover-se para outros setores, como a indústria de equipamentos agrícolas.

Dilma criticou o sistema financeiro. Depois houve recuo?

Há um problema de relação de força. Não é saber quem tem razão. É saber quem tem mais poder de fogo, quem tem mais força.

Quem tem mais força: o mercado financeiro ou Presidência da República?

O mercado financeiro. No mundo inteiro. Ou se acha que os europeus fazem isso porque acham engraçado? É porque eles entregaram a rapadura! Não se pode mexer naquilo que é essencial.

O que é essencial?

O emprego, a renda, o bem-estar das pessoas.

Hoje o governo está de mãos atadas em relação ao mercado financeiro?

O governo está perdendo a batalha ideológica e política para o mercado financeiro. O mercado financeiro hoje, no mundo, é um setor cujo funcionamento está voltado para o enriquecimento de suas próprias funções ou dos seus participantes. Deixou de fazer a intermediação banco/empresa/investimento. Por que eles resistem à intervenção no câmbio? A volatividade cambial é péssima para a decisão de investimento. Mas para eles é ótima, porque ficam arbitrando.

Dilma está à direita de Lula?

O mercado acha que ela está à esquerda de Lula. Dizem que o Lula era legal porque conversava. Dizem que ela é a rabugenta, intervencionista e o diabo. A presidente, coitada, herdou esse negócio, e é muito difícil se desvencilhar disso. Ela está seguindo mais ou menos os cânones que são dominantes na economia. Deu uma recuada diante da correlação de forças. Ela está lá meio desconfortável, fazendo o que pragmaticamente deve fazer, não o que ela gostaria. Nem acho que a questão se coloque como mais ou menos intervenção. Com o câmbio muito fora do lugar e a situação internacional, haverá dificuldades de reativar a economia. São duas as oportunidades que ela tem: acelerar as concessões e melhorar o investimento em infraestrutura, com efeito sobre a indústria, e o pré-sal.

Dilma é uma decepção ou está dentro do esperado?

Ela está fazendo o que pode. Sou suspeito porque me considero amigo dela; fui professor dela. O tabelamento da taxa de retorno pegou mal no mercado. Quase disseram que ela era uma réplica da política dos bolivarianos. Tem cabimento essa comparação? Estão botando ela contra a parede. Ela está tentando resistir.

Nesse quadro de atrito, empresários devem apoiar outros candidatos?

Ninguém joga dinheiro fora. É menos atrito e mais reclamação. Eles já se deram conta de que uma coisa é a relação de forças da economia; outra, é a da política. Eles se deram conta de que ela vai ganhar. Vão compor com ela, e ela vai compor com eles, discutir.

Por que os indicadores sociais pararam de melhorar?

Estão melhorando menos, porque a melhora foi muito intensa antes. Dilma está com dificuldade de levar adiante o projeto. Mas eu não creio que ela tenha abandonado esse núcleo central. Ela avançou no Bolsa Família e em outros benefícios. A economia não cresce, não resolvemos o problema da indústria. E, se não o resolvermos, as coisas voltarão para trás.

O governo desacelerou investimentos. Foi um erro?

Eu acho. O investimento público é formador das expectativas do mercado.

É preciso voltar com a ideia de planejamento indicativo do governo. O investimento público, na história do Brasil, definiu o horizonte do investimento privado.

O modelo do tripé deve ser abandonado?

Não. É uma maneira de enquadrar ou organizar as expectativas. Isso não quer dizer usar de uma maneira mecânica.

A forma como alguns tratam o tripé é religiosa. Funciona muito mais como uma fé do que como uma convicção racional.

Os juros devem subir muito?

Não conheço nenhuma experiência em que subir juro funcionou para segurar dinheiro. É ineficaz.

A questão do rebaixamento é importante?

Depois do que essas agências de risco fizeram no pré-crise, é impressionante que as pessoas falem delas com respeito. Deveriam estar na cadeia.