17 de fev de 2014

Entrevista com a senadora Gleisi Hoffmann

Entrevista concedida à jornalista jornalista Monica Bergamasco, pulicada na “Folha de S. Paulo”.

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Deixa a Casa Civil com algum arrependimento?

Eu gostaria de ter tido mais celeridade nas entregas. Queria que nosso Programa de Investimento e Logística já estivesse com todos os modais em processo de licitação. E que o programa de combate ao crack, que é muito complexo, já pudesse estar dando frutos mais concretos.

Essa, inclusive, foi uma promessa de campanha da presidente Dilma...

O governo está estruturando uma política pública de governo muito consistente. Ela é mais demorada em dar resposta porque depende da articulação das três esferas da federação e de vários órgãos. Claro que eu gostaria que tivesse mais celeridade. Claro que se eu tivesse, no início, a experiência e o conhecimento que eu tenho agora, acho que eu teria conseguido fazer isso.

E qual é a maior dificuldade do governo em fazer o Brasil andar?

Ainda é a falta de cultura da máquina pública de agir por resultado. Temos uma baixa cultura de comprometimento de entregas. O serviço público não está acostumado a isso, então, quando nós cobramos resultados, muitas vezes tem reação. Quando cobramos metas, organização, não temos o retorno esperado, porque é uma questão de cultura e também da própria organização do serviço público, em que a estabilidade está na base e a instabilidade está no comando. Isso faz com que o setor público acabe ficando acomodado. Tem uma tendência à acomodação, a ter mais inércia. Com certeza dificulta muito dar mais celeridade aos programas e resultados mais rápidos.

É por isso que a população vive com a sensação de que nada está sendo feito, que o País não está caminhando?

Com certeza, isso dá uma sensação de paralisia, o que é uma pena, né? Não quer dizer que os governos não estejam trabalhando, tentando fazer. Muitas vezes você não consegue dar o resultado e o retorno imediatos porque você não tem os meios legais para que aquilo possa ser realizado. É diferente da iniciativa privada.

A senhora sofreu algum tipo de resistência por ser mulher e bonita na Casa Civil?

Bonita é por sua conta, mulher, sim (risos). Eu não diria uma resistência, mas uma desconfiança, porque não é comum haver mulheres na política e em cargos de comando. Tem uma tendência a testar para ver se realmente tem capacidade e competência. Senti essas movimentações, essas condutas. Mas você não pode se deixar levar por isso. Muitas vezes, na hora de fazer as cobranças, eu falava em nome da presidenta e impunha o que tinha que ser feito. Sempre fui muito respeitosa mas também muito dura. Nunca fui muito delicada, não era meu objetivo.

Como era conviver com seu marido em outro ministério?

Sempre convivemos muito bem. Quando a situação ficava mais delicada, que a minha cobrança tinha que ser mais imperativa e eu achava que isso poderia resultar num acirramento da relação pessoal, eu recorria à presidenta. Eu dizia: 'A senhora me ajuda aqui' (risos). E, sim, o trabalho dominava a pauta do matrimônio sempre.

De quem é a culpa pelo fato de os estádios da Copa do Mundo não estarem prontos?

Eu acompanhei a questão dos estádios desde o início. Foi uma das primeiras missões que a presidenta deu. Fizemos uma força-tarefa, junto com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Ministério do Planejamento e dos Esportes para viabilizar os empréstimos que tinham sido prometidos aos Estados e para acompanhar o desenvolvimento das obras. Tivemos um engajamento forte das prefeituras e governos estaduais. Infelizmente, em relação a Curitiba não foi a mesma coisa. Tanto a administração do estádio quanto os governos locais não corresponderam. O empréstimo para o Atlético Paranaense estava liberado desde o início e o clube demorou muito a ir buscar esse empréstimo e espero que realmente agora consigam recuperar o tempo perdido. Será uma vergonha para Curitiba e o Paraná não sediarem os jogos da Copa do Mundo.

O prefeito de Curitiba, Gustavo Fruet (PDT), é da base do governo...

O processo todo foi feito antes da entrada do Gustavo, na gestão anterior.