23 de ago de 2015

Entrevista com Roberto Setubal

Entrevista concedida ao jornalista DAVID FRIEDLANDER, publicada na Folha de S. Paulo, em 21.08.2015.

Shot 013

Folha - A presidente Dilma está sofrendo ameaça de um processo de impeachment, pressão por sua renúncia e manifestações de rua contra seu governo. O sr. vê motivos para tirá-la do Planalto?

Roberto Setubal - Nada do que vi ou ouvi até agora me faz achar que há condições para um impeachment. Por corrupção, até aqui, não tem cabimento. Não há nenhum sinal de envolvimento dela com esquemas de corrupção.

Pelo contrário, o que a gente vê é que Dilma permitiu uma investigação total sobre o tema [corrupção na Petrobras]. Era difícil imaginar no Brasil uma investigação com tanta independência. A Dilma tem crédito nisso.

E as pedaladas fiscais?

Isso é grave e pode merecer algum tipo de punição. Mas não me parece ser motivo para tirar a presidente. Até porque presidentes anteriores a ela passaram por situações semelhantes. Seria um artificialismo querer tirar a presidente neste momento. Criaria uma instabilidade ruim para nossa democracia.

Empresários dizem que, se o vice Michel Temer entrasse no lugar de Dilma, o país teria mais chance de sair da crise...

Não se pode tirar um presidente do cargo porque ele momentaneamente está impopular. É preciso respeitar as regras do jogo, precisa respeitar a Constituição. Eu sou a favor da Constituição.

Como avalia o comportamento da oposição nessa crise?

Não vou falar especificamente da oposição. Mas o que está faltando é discutir o país. Há uma grande discussão sobre poder e pouca discussão sobre o país. Precisamos debater quais as reformas necessárias para que o país possa se recuperar. Só estou vendo muita discussão de poder pelo poder.

Os empresários saudaram Joaquim Levy [Fazenda] como ideal para tirar o país da crise econômica. Por que ele não está dando certo?

Ele está fazendo as coisas certas, mas os efeitos positivos ainda não vieram. Vai muito além da capacidade de um ministro, sozinho, resolver os problemas do país. Ele precisa de apoio político tanto da presidente como do Congresso.

O governo usou bancos públicos novamente para salvar a economia, política já criticada por Levy. Não é um sinal de que o ministro está fraco?

Não vejo isso como uma direção do governo –se ficar nisso, claro. Acho uma medida pontual, sem muito impacto na economia.

A Agenda Brasil, apresentada como um pacote de reformas para empurrar o país para a frente, tem mais de 40 medidas. É para ser levada a sério?

Nessas medidas há passos necessários que precisamos dar, como a reoneração da folha de pagamentos [aumento de tributos para alguns setores]. Mas são medidas menores para ir levando o país e sair um pouco dessa crise.

Para que o país volte a crescer a um ritmo mais elevado, precisamos de reformas mais amplas. Mas isso não foi tratado na campanha presidencial do ano passado e também não é isso o que o Congresso está discutindo hoje.

Quais são essas reformas?

A reforma política é muito importante. O país tem mais de 30 partidos, isso não funciona. Não vejo nenhuma razão para ter mais do que seis, oito, no máximo dez agremiações. Dá para acomodar perfeitamente todas as linhas ideológicas neles.

A necessidade dos governos de ter maioria no Congresso obriga a alianças muito amplas e negociações que nem sempre são boas para o país. Esse tipo de concertação é uma das razões para a situação em que estamos.

O governo acaba fazendo tantas concessões para satisfazer tantos partidos que desfigura os projetos, leva a ineficiências, a decisões erradas e interesses muito pequenos.

Onde mais o sr. mexeria?

A reforma trabalhista.

O Brasil é um dos países com mais ações trabalhistas no mundo. No Japão há 7.000 ações trabalhistas. Nos Estados Unidos, não chegam a 70 mil. No Brasil, temos alguns milhões.

Criou-se uma indústria de ação trabalhista no Brasil, que é um negócio que precisa ser repensado.

Não seria por que aqui muitas empresas não respeitam os direitos de seus trabalhadores?

Isso tudo é muito em razão de uma legislação que nenhuma empresa consegue cumprir. O Itaú tem enorme dedicação a isso, somos superlegalistas, mas simplesmente é impossível cumprir todos os detalhes.

Para mim, o primeiro passo seria permitir que os sindicatos negociassem diretamente com as empresas contornos sobre a legislação trabalhistas. Não é mudar a lei, mas permitir que setores diferentes negociem em função das suas características, das suas peculiaridades, permitir negociação setor a setor.

Tem mais?

Tem muita coisa. É essencial criar uma agenda para melhorar a produtividade, e, para isso, é inevitável passar por um processo de maior abertura econômica.

Agora, uma coisa que está começando a mudar no Brasil, e é superimportante, é a questão da impunidade.

A lei antes parecia não ser igual para todos. Agora estamos avançando nisso.

O sr. identifica a Operação Lava Jato como um passo nessa direção?

Sim. A Lava Jato só foi viável por causa de três leis bastante recentes, nas quais se baseia toda a investigação: a lei da delação premiada, que foi aperfeiçoada, já no período Dilma; a lei anticorrupção; a lei de lavagem de dinheiro.

Essas três leis tornaram possível a investigação e a caracterização dos crimes de corrupção que estamos vendo aqui.

Com a estrutura legal de cinco ou dez anos atrás –a época do mensalão, por exemplo–, não seria possível um enquadramento tão adequado quanto estamos conseguindo hoje. Vejo uma evolução nesse campo.

Voltando a nossa crise do momento, o sr. acha que a situação vai piorar?

A saída da crise será longa, nosso período de recuperação será lento.

Estamos vivendo aquele momento mais difícil em que as medidas duras foram tomadas e a gente ainda não tem nenhum benefício delas.

Os economistas do próprio Itaú estimam queda de 1% do PIB no ano que vem. Quando o sr. acha que o país sai da recessão?

A situação econômica é difícil, mas eu também olho para a frente e vejo algumas coisas melhorando. A balança de pagamentos começou a reagir e as exportações estão crescendo. Acho que o setor externo vai puxar a recuperação e pode haver alguma surpresa nessa área. Ainda não tenho certeza de que o ano que vem terá PIB negativo.

A recessão vai jogar a taxa Selic para baixo daqui a pouco? Ou os juros ainda vão continuar altos por muito tempo?

O Banco Central está fazendo uma política monetária restritiva, que a meu ver era necessária.

Difícil dizer qual o momento correto de reduzir os juros, mas acho que não é agora.

A inflação ainda está em níveis elevados.

Por que o Itaú não fez oferta pelo HSBC? Para muitos analistas, vocês tentariam comprar o banco para não deixá-lo cair nas mãos do Bradesco.

A gente fez um lance, mas não foi agressivo.

Nossa estratégia é investir em tecnologia como caminho para o futuro. Estamos investindo mais em agências digitais, em serviços digitais para os clientes, via aparelho celular e internet, e menos na rede de agências.

Já servimos assim mais de 1 milhão de clientes e queremos aumentar esse número rapidamente. O plano é crescer mais por meio de tecnologia do que por abertura de agências.

Ainda há bancos para comprar aqui?

No Brasil, a última grande instituição para ser comprada foi o HSBC. No exterior continuamos com nossa agenda de expansão na América Latina. Já estamos no Chile, na Colômbia, na Argentina, no Paraguai e no Uruguai. Queremos ter banco de varejo também no México e no Peru.

A procura de empresas interessadas em vender seus ativos para enfrentar a crise aumentou?

Neste momento, quem estiver disposto a adquirir ativos maiores tem oportunidades bastante interessantes.

Mas quem são os possíveis compradores?

Investidores estrangeiros, por exemplo. O ajuste do câmbio aumenta o interesse deles. É evidente que o Brasil tem riscos elevados no momento, mas tem coisas bastante atrativas que podem ser adquiridas.

O que os estrangeiros dizem sobre o Brasil?

Evidente que há incerteza em relação ao cenário atual, tanto político quanto econômico. Mas eles também reconhecem que o câmbio está interessante para investir no Brasil e sabem que há retornos elevados em ativos que estão à venda.

À medida que a economia comece a dar sinais de recuperação e o cenário político se estabilize, as coisas tendam a melhorar.

Seu pai foi prefeito de São Paulo e ministro do governo Sarney. E sua irmã, Neca, foi uma das principais coordenadoras da campanha de Marina Silva à Presidência no ano passado. Como é a sua relação com a política?

Distante. Adoro meu país e acredito muito nele, mas acho que minha contribuição é do lado do setor privado. Acho que, de certa forma, contribuo, administrando o banco. E não me vejo envolvido na política.

Sua irmã foi muito hostilizada pelo PT e pela campanha de Dilma na última eleição. Isso chegou a afetar o banco?

Nada. Fizemos até pesquisa com clientes para ver se aquilo estaria tendo alguma influência. Zero. E minha irmã foi muito cuidadosa, sempre evitou fazer qualquer ligação com o banco. A imprensa e os políticos é que faziam mais.

Neca acredita nas coisas dela de forma legítima. Ela milita na área de educação desde sempre. Faz um trabalho belíssimo, reconhecido. Enfim, acho que ela ainda tem a intenção de contribuir para o país no setor em que atua. Infelizmente foi mal compreendida.

16 de ago de 2015

Por quem as panelas batem

Artigo de Antonio Prata, escritor e roteirista, publicado na Folha de S.Paulo em 16.08.2015. 

Shot 008

Temos toda a razão de bater panelas quando a presidente aparece na TV dizendo que a culpa por nossa pindaíba é da crise internacional. Mas por que não batemos panelas quando Eduardo Cunha, o líder dos "black blocs" brasileiros, vândalo que faz política com pedras, bombas e coquetéis molotov, vai em rede nacional dizer que trabalha "para o povo", "sempre atento à governabilidade do país"?

Temos toda a razão de bater panelas contra a corrupção da Petrobras. Mas por que não batemos panelas contra o mensalão mineiro ou o cartel do metrô paulistano? Por que não batemos panelas contra a compra de votos para a reeleição do FHC? Por acaso pagar apoio na Câmara é mais grave do que pagar emenda na Constituição?

Temos toda a razão de bater panelas contra o retrocesso econômico de 2015. Mas como podemos não bater panelas contra o anel de pobreza que desde sempre engloba as metrópoles brasileiras, essa Faixa de Gaza de tijolo aparente, essa Cabul de laje batida onde se amontoa boa parte da população?

Temos toda a razão de bater panelas quando o governo se cala diante dos descalabros venezuelanos e da ditadura cubana. Mas por que não batemos panelas diante do fato de nosso principal parceiro comercial ser a China, maior ditadura do planeta? O tofu que alimenta aquela tirania é feito com a nossa soja e os fazendeiros, ruralistas e empresários que acusam a "venezualização" do Brasil são os mesmos que lucram com o dinheiro comunista. Ninguém bate woks por causa disso?

Temos toda a razão de bater panelas contra o estelionato eleitoral do PT. Mas por que não batemos panelas contra o estelionato eleitoral do PSDB, que elege repetidamente um governador tipo "gerente", prometendo "e-fi-ci-ên-ci-a" em cada sílaba, mas coloca São Paulo à beira do co-lap-so-hí-dri-co"? Um cristão cuja polícia, não raro, participa de grupos de extermínio, na periferia. Esta semana, foram 18 chacinados em Osasco e Barueri. Imagina se fosse no Iguatemi? E o estelionato das UPPs, no Rio, que prometem paz, mas torturam um cidadão até a morte e somem com o corpo?

"Não, não, isso não! Me mata, mas não faz isso comigo!", gritava o Amarildo, segundo um policial que testemunhou a barbárie, dentro de um contêiner. Como pode a nossa maior preocupação em relação ao Rio, hoje, ser com a qualidade das águas para as Olimpíadas de 2016? Cadê o Amarildo? Cadê as panelas?

Temos toda a razão de sair pra rua, neste domingo, para protestar contra a incompetência, a corrupção e a burrice do governo. Mas por que não sair pra rua para protestar contra a incompetência, a corrupção e a burrice do país como um todo? Um país que mata seus jovens, sonega impostos, polui, compra carteira de motorista, licença ambiental, alvará, dirige pelo acostamento, estupra, espanca e esfaqueia mulher (mas retira a discussão de gênero do currículo escolar), um país onde os negros correspondem a 15% dos alunos universitários e a 67% da população carcerária.

Este ódio cego, esta parcialidade hipócrita, este bombardeio cirúrgico que pretende eliminar o PT –e só o PT– para "libertar o Brasil", empoderando Renan Calheiros e Eduardo Cunha, não é o desabrochar da consciência cívica, é mais um fruto da nossa incompetência, mais uma vitória da corrupção; palmas para a nossa burrice.

2 de ago de 2015

Entrevista com Marina Silva

Entrevista concedida ao jornalista Bernardo Mello Franco. Publicada na Folha de S. Paulo em 02.08.2015

Shot 004Folha - A senhora consegue ver uma saída para a crise?

Marina Silva - A contração da economia vai se estender por um período que ainda não sabemos qual é. Se o país perder o grau de investimento, a situação vai se agravar.

Neste momento, é preciso ter muita responsabilidade. Já tivemos perdas em relação às conquistas econômicas. Agora estamos tendo perdas em relação às conquistas sociais, com inflação e desemprego. Uma coisa que não podemos perder é a nossa confiança na democracia.

Não podemos, em hipótese alguma, colocar em xeque o investimento que fizemos na democracia. Você não troca de presidente por discordar dele ou por não estar satisfeito. Se há materialidade dos fatos, não há por que tergiversar. Se não há, o caminho doloroso de respeito à democracia tem que prevalecer.

As manifestações do dia 16 devem pedir o impeachment de Dilma. Qual a sua opinião?

A sociedade tem todo o direito de se manifestar, porque foi enganada quando negaram os problemas e não fizeram o que era preciso.

Mas esse protesto não pode antecipar o que a Justiça ainda não concluiu. Uma coisa é o que a sociedade pauta, outra é o que as lideranças políticas têm que ponderar.

Alguns políticos estão tentando instrumentalizar a crise, em vez de resolvê-la. Na democracia, não se resolve a crise passando por cima do processo constitucional.

Isso tem um custo? Claro. Mas a liderança política não tem apenas que repetir o que se quer ouvir. Às vezes, ela tem que pagar um preço. Não podemos deixar de considerar o valor da democracia, até pelos traumas que passamos.

A sra. é cobrada por não defender o impeachment?

O presidente Fernando Henrique tem uma postura ponderada e paga um preço por isso. Eu tenho pago o meu. Não estou fazendo isso porque quero agradar A ou B. É porque acho que é o certo. É muito fácil pensar que existe uma saída mirabolante.

Dilma tem responsabilidade pelo escândalo da Petrobras?

Ela foi ministra de Minas e Energia, chefe da Casa Civil e presidente do conselho da Petrobras. Eu não seria leviana de dizer, sem provas, que ela tem responsabilidade direta. Sinceramente, torço para que não. Ela tem responsabilidades políticas e administrativas. Não há como ser isentada politicamente.

Mas a legislação brasileira diz que é preciso ter envolvimento direto para o impeachment. Não podemos ter uma atitude leviana com isso.

A presidente voltou a falar em diálogo. A sra. aceitaria um convite para conversar?

Agora que estamos com o leite derramado, as pessoas se dispõem ao diálogo...

O caminho do diálogo é sempre bem-vindo, desde que se saiba em que direção. Na direção de mais do mesmo, não há o que conversar.

Torço para que a presidente e sua equipe reconheçam a gravidade dos problemas e os erros que foram cometidos. Reconhecer isso é a base para encontrarmos uma solução.

Qual a saída possível?

Temos que seguir dois trilhos. Um é o das investigações, com autonomia para o Ministério Público, a Polícia Federal e a Justiça. O outro trilho é o dos rumos da nação.

Talvez seja o momento de um pacto em torno de uma agenda comum aos interesses do país. Qualquer governo deveria ter apoio para medidas estruturantes. Eu não posso ser a favor do desenvolvimento sustentável e votar contra ele porque quem está propondo é a Dilma ou o Aécio. Isso seria incoerente.

Quais são os erros que o governo precisa reconhecer?

Em 2008, todo o mundo decidiu fazer o dever de casa. O Brasil simplesmente negou a crise. Negou o princípio da realidade. Tomamos medidas inicialmente acertadas, de estímulo ao mercado interno, mas em algum momento a corda iria quebrar.

O governo criou a expectativa de que o país poderia continuar crescendo 7% ao ano, como em 2010.

Se a sra. fosse eleita, não faria um ajuste igual ao de Dilma?

A dose não seria de morfina, como a que está sendo dada agora. Com mais credibilidade, com certeza se criaria um ciclo virtuoso de investimento e mobilização dos setores produtivos. O remédio seria menos amargo.

Eduardo Cunha pode continuar à frente da Câmara?

Nenhum de nós está acima da lei, por mais que tenhamos cargos importantes no Congresso. Uma vez denunciado, é óbvio que ele deve ser afastado, sem que isso seja um pré-julgamento. Mas a função que ele ocupa pode criar impedimentos ao andamento das investigações.

Alguns eleitores reclamam que a sra. anda distante do noticiário. A Marina sumiu?

Em 2010, as pessoas me faziam a mesma pergunta. Esse não é o momento de ficar gesticulando, tagarelando. É o momento do gesto.

Não estou aqui para instrumentalizar a crise. Nunca parei de trabalhar. Continuo na militância socioambiental e sou professora associada da Fundação Dom Cabral.

Pretende se candidatar a presidente de novo em 2018?

Ainda não sei. Estou ajudando a criar a Rede [seu novo partido, ainda não registrado]. Quero fazer as coisas sem estar presa ao que pode ser eleitoralmente melhor.

A gente está no fundo do poço porque a preocupação é maior com as eleições do que com o futuro da nação.