29 de mai de 2016

O Pará e os Portos– Parte I

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O Pará é o estado brasileiro dotado da mais privilegiada costa fluvial-marítima para recebimento e escoamento de produção em razão da formidável quilometragem de enseadas, baías, taludes e penínsulas contendo centenas de refúgios naturais onde podem ser instalados portos para embarcações dos mais variados calados. Ou seja, entre o continente e o oceano existe a malha hidroviária natural, onde a navegação está abrigada das inconstâncias marítimas.

Mas os frutos dessa vocação não reverteram em quase nada em bens e em investimentos perenes ao Pará. Após a exploração desse potencial pelo empresário norte-americano Percival Farquhar, que possuiu por quase 40 anos a concessão dos serviços portuários por meio da empresa Port of Pará Co., em 1940 entrou no processo de mumificação que a estatização e as relações sindicais parasitárias causaram em todo o setor portuário. Hoje vem a ser a atual Companhia Docas do Pará.

A partir de 1993, com o início da modernização do setor, portos privados passaram a ser planejados, mas de novo, sem que os investidores trouxessem perspectivas de investimentos locais. Ao contrário, deixando passivos socioambientais gravíssimos. Exemplo disso são as atividades ilegais e criminosas da multinacional norte-americana Bunge Alimentos, que é titular de uma alça portuária de Miritituba em Itaituba até Vila do Conde em Barcarena, adquirida do atual Secretário de Estado de Transportes, Kleber Menezes, sem qualquer investimento para reduzir os impactos sociais e ambientais das suas operações. Até junho do ano passado, quando foi subjugada por ordem judicial liminar com multa diária milionária, a empresa ianque barbarizava as comunidades ribeirinhas no Furo do Arrozal.

O deputado federal Edmilson Rodrigues tornou-se, de crítico diário na tribuna da Câmara, no mais festivo anfitrião dessa empresa, tendo realizado um seminário em Barcarena para celebrar “os investimentos sociais” (?!?!)da Bunge Alimentos. Se não estivesse filmada e gravada a patacoada, eu não teria acreditado, porque tudo é uma simulação, porque nunca a empresa norte-americana investira em Barcarena!

Na sessão do Tribunal de Justiça do dia 18 passado, o mais profícuo debatedor do Tribunal de Justiça, desembargador Milton Nobre, demonstrou desconhecer como estão as relações dessas exportadoras de grãos que estão ocupando os mais privilegiados espaços portuários no Pará. Exaltou os empregos e os investimentos que fazem aqui. Empregos? Investimentos? Se eu não tivesse assistido, não acreditaria se me contassem!

Além do passivo deixado (desgaste de estradas, prostituição infantil, danos ambientais, enfim) sem qualquer remediação, as empresas de exportação de grãos que utilizam a malha fluvial e possuem terminais portuários quase não geram empregos e quase nada pagam de tributação.

Mas parece que algumas autoridades do Estado do Pará começaram a despertar. Na sua 5oª Sessão Ordinária, ocorrida na semana passada, o Conselho Estadual do Meio Ambiente acolheu por unanimidade o voto do secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico, Adnan Demachki, condicionando autorização de construção de porto pela empresa Odebrecht Transport a que ela apresente, em 180 dias, projeto de uma indústria que verticalize a produção de grãos no Pará, o que redundará em empregos e receitas tributárias diversas.

Entrevista com Dilma Rousseff

Entrevista concedida à colunista Mônica Bergamo, publicada na Folha de S. Paulo em 29.05.2016.

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Folha - No dia em que saiu do Planalto, a senhora pedia às pessoas que não chorassem. A senhora não chora?

Dilma Rousseff - Eu não choro, não. Nas dores intensas, eu não choro. Cada um é cada um, né?

E o Lula?

O Lula chora. Ele chorou, sim. O Lula ficou muito triste ali, quando eu saí.

Nas conversas gravadas por Sérgio Machado, José Sarney diz que Lula está deprimido e com os olhos inchados de tanto chorar.

É mentira. Gente, o Lula é uma pessoa com fortes emoções. O Lula chora porque tem dor. Ato contínuo, ele se recupera e enfrenta a vida. Que Lula tá com olho inchado de chorar, o quê!

Houve um pior momento nesse processo? A maior traição?

Você não vai me perguntar da maior traição, né? Ela é tão óbvia!

Michel Temer?

Óbvio. E não foi no dia do impeachment. Foi antes. Em março. Quando as coisas ficaram claríssimas.

A senhora não esperava?

Você sempre acha que as pessoas têm caráter. Eu diria que ele não foi firme. Tem coisas que você não faz.

Olhando em perspectiva, a senhora não acha que teria sido melhor ter cedido o lugar para que Lula fosse candidato à Presidência em 2014?

A Barbara Tuchman escreveu um livro fantástico, "A Marcha da Insensatez". A insensatez só é insensata quando você percebe que isso pode ocorrer e insiste. Não vale a pena olhar para trás, com tudo já passado, e falar "tinha de ser assim".

Lula também insistia para que a senhora nomeasse Henrique Meirelles para o Ministério da Fazenda, cargo para o qual Temer agora o convidou.

Cada um é cada um. Eu respeito o Henrique Meirelles, tá? Agora, eu não concordo com essas medidas [anunciadas pelo ministro na semana passada]. Gosto mais do Meirelles no Banco Central que no Ministério da Fazenda. Pelo menos até agora.

Não sei se é dele essa ideia de propor o orçamento base zero [que só cresce de acordo com a inflação do ano anterior]. Mas não é possível num país como o nosso, não ter um investimento pesado em educação. Sem isso, o Brasil não tem futuro, não. Abrir mão de investimento nessa área, sob qualquer circunstância, é colocar o Brasil de volta no passado. É um absurdo.

No governo da senhora também houve cortes e o então ministro da Fazenda Nelson Barbosa, numa proposta fiscal rigorosa, chegou a prever mudança na política de reajuste de salário mínimo.

Nós passamos um ano terrível em 2015 e fizemos todo o esforço para não ter corte em programa social. Nós assumimos [a proposta de se recriar] a CPMF, sem pudor.

Nós nunca entramos nessa do pato [símbolo criado pela Fiesp para protestar contra aumento de impostos]. Aliás, o pato tá calado, sumido. O pato tá impactado. Nós vamos pagar o pato do pato, é?

Porque quem paga o pato, quando não se tem imposto num país, é a população. Vai ter corte na saúde. Já falaram em acabar com o Mais Médicos, já falaram que o SUS não cabe no orçamento. Depois voltaram atrás.

Os que são chamados de coxinhas acreditam que o Bolsa Família é uma esmola. Não é. Ele tem efeito enorme sobre as crianças.

Entre fazer isso [cortes em área sociais] e criar um imposto, cria um imposto! Para com essa história de não criar a CPMF. Só não destrói a educação e a saúde. Não tira as crianças da sala de aula. É essa a discussão que precisa ser feita e não uma discussão genérica sobre o pato.

A senhora fala que o programa de Temer não passou pelas urnas. Mas a senhora também falou uma coisa na campanha e fez outra depois de eleita.

Quando é que o pessoal percebeu que tinha uma crise no Brasil, hein? A coisa mais difícil foi descobrir que tinha uma crise no Brasil.

Na eleição, todo mundo tinha percebido, menos a senhora?

Me mostra a oposição falando que tinha crise no Brasil! Ninguém sabia que o preço do petróleo ia cair, que a China ia fazer uma aterrissagem bastante forte, que ia ter a pior seca no Sudeste.

A senhora diz então que não deu uma guinada de 180º, como até seus aliados afirmam?

Eu vinha numa política anticíclica e acabou a política anticíclica. A guinada é essa. Agora, isso não significa que não possamos ter errado nisso e naquilo. Porque senão fica assim "não errei em nada". Não é isso.

Errou em quê?

Ah, sei lá. Como é que eu vou falar da situação depois?

Na escolha do candidato a vice-presidente?

Ah, não vou falar isso. É tão óbvio! Mas não tem essa volta ao passado. Isso não existe.

22 de mai de 2016

Entrevista com Helder Barbalho

Entrevista concedida à jornalista Luiza Mello, publicada no “Diário do Pará” em 22.05.2016.

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P: Ministro, como é assumir a terceira pasta no Governo Federal em pouco mais de 15 meses?

R: Em primeiro lugar, é preciso ter foco e clareza sobre as atribuições de cada pasta. Também é fundamental, na minha opinião, se doar integralmente à missão. Ter tido a oportunidade de estar à frente do Ministério da Pesca, por exemplo, foi extremamente gratificante.

P: O senhor pode destacar algum legado de sua passagem pela pasta?

R: Deixamos a semente do Plano de Desenvolvimento da Aquicultura, que já permitiu o aumento de 15% na produção de pescado de um ano para outro. Há muitas outras conquistas. Entender a importância do setor pesqueiro para o Brasil e, particularmente, para o Pará, foi muito importante no sentido de me aprofundar nos problemas do nosso Estado e na busca de soluções. A pesca propicia ao paraense e ao amazônida proteína de qualidade e geração de renda para a população. Um potencial que o mundo começa a descobrir.

P: E sobre o trabalho na Secretaria dos Portos?

R: O Pará tem localização estratégica do ponto de vista logístico que, aproveitada em sua totalidade, vai viabilizar a verticalização produtiva, além de induzir outras alternativas econômicas para o Estado. Consolidamos o Arco Norte, este novo caminho do escoamento da produção. Ao mesmo tempo, mostramos ao Brasil que o País precisa do Estado do Pará como meio de escoamento da produção, descentralizando dos eixos Sul e Sudeste.

P: O senhor anunciou também os leilões das áreas portuárias e o projeto de revitalização da área de porto em Belém...

R: Os leilões das áreas portuárias no Pará estão com data marcada para o dia 10 de junho. Conversei com o presidente [interino] Michel Temer, ressaltando a necessidade de fortalecer a participação da iniciativa privada no setor de logística, e o presidente assegurou que os leilões estão confirmados. Sobre o projeto de revitalização do Porto de Belém, estamos discutindo a concepção do espaço. A sociedade está sendo chamada para dizer que projeto quer.

P: O que a população do Pará pode esperar da Integração Nacional?

R: O Ministério da Integração Nacional tem como missão proporcionar o desenvolvimento nacional; garantir segurança hídrica e oferecer proteção por meio da Defesa Civil Nacional em momentos de catástrofe, de emergência e de calamidade pública. Temos muito o que fazer em nossa região, sem tirar os olhos também das demais regiões brasileiras. Vamos trabalhar políticas públicas para diminuir essas desigualdades sociais. O Marajó, por exemplo, não pode ser tratado com a mesma concepção de política pública de outras regiões paraenses, como, por exemplo, oSul do Estado.

P: O que pode ser feito de imediato?

R: No caso do Pará, por exemplo, temos diversos convênios aqui no Ministério com municípios paraenses. São mais de 166 milhões de reais em convênios, faltando um total de R$ 31 milhões a serem repassados. Na Defesa Civil, temos outros R$ 117 milhões. Meu papel agora, como ministro paraense, é contribuir para agilizar a análise desses processos.

P: Com relação à Sudam [Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia], qual será o papel deste órgão no cenário econômico do Pará?

R: Dentro da agenda de desenvolvimento que passamos a executar, está o protagonismo da Sudam no processo de oferta de apoio para empresas e indústrias. Da mesma forma, vamos dialogar com o Banco da Amazônia, já que os fundos constitucionais estão aqui, nesta pasta, como o Fundo Constitucional de Financiamento do Norte (FNO). Isso é fundamental para que a iniciativa privada possa ter oferta de crédito para fomentar a produção na região.

P: E como fica a família nesse trabalho árduo?

R: Minha família tem sido extremamente paciente e compreensiva. Minha esposa e meus filhos participam de maneira muito ativa da minha vida, não só no campo pessoal como também no profissional. De certa forma, eles compreendem e já estão acostumados com essa rotina. Quando estou com a família, procuro ser intenso e com qualidade. E eu só tenho a agradecer à minha esposa. Ela é uma mulher maravilhosa, uma companheira extraordinária e comprou a minha história, apostou na minha escolha. E considero isso fundamental para um casal.

16 de mai de 2016

Entrevista com Eduardo Cunha

Entrevista concedida aos jornalistas Natuza Nery e Paulo Gama, publicada na Folha de S. Paulo de 16.05.2016.

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Folha - Dilma o chama de capitão do golpe.

Eduardo Cunha - Olha aqui, eu tive 53 pedidos de impeachment da presidente. Nunca na história deste país teve um presidente com tantos pedidos de impeachment. Do 53 que ingressaram, eu rejeitei 41, aprovei um e ainda deixei 12 que não foram decididos. Se eu fosse o capitão do golpe, já teria tido impeachment muito tempo atrás. Eu rejeitei o conceito de que o mandato anterior contaminava o mandato atual. Não entrei no mérito da corrupção. Ela promoveu despesas sem autorização do Poder Legislativo. Foi técnico.

Sua decisão de deflagar o impeachment veio na esteira da decisão do PT de não apoiá-lo no Conselho de Ética...

Se você olhar o cronograma das decisões, verá que eu tinha prometido publicamente que, até o dia 30 de novembro, eu traria uma decisão. Por que eu acatei o pedido em 2 de dezembro? Primeiro, por que eu quis homenagear a data de aniversário da minha filha [risos]. Segundo, porque eu vi que iriam votar a mudança da meta [fiscal] na sessão do Congresso Nacional. Eu queria que a decisão fosse antes da votação da mudança da meta. Se eles votassem a mudança da meta, eles ficariam com discurso político de que a meta já tinha sido votada.

Isso não reforça a tese de que o sr. forçou a mão do impeachment?

Eu já estava com a decisão tomada, posso comprovar. Era só uma questão de tempo. Quando eu vi que ia ter a mudança da meta, eu falei: 'tem que ser antes', se não você enfraqueceria.

Horas poderiam ter mudado o destino da presidente.

Não sei se poderia ter salvado, mas que efetivamente daria para eles uma desculpa, daria. O fato de ter votado não significa que ela não teria praticado crime. Mas era fundamental, na minha ótica, que essa decisão fosse feita antes da votação, para evitar um discurso político. Essa foi a razão pela qual eu soltei [o pedido] naquele dia. Não tem outra razão.

E lhe digo mais. Eu não fiz chantagem. Fui eu que não aceitei a chantagem dela. Tenho três testemunhas que estavam na minha sala quando Jaques Wagner surgiu na linha do telefone tentando falar comigo. Ele dizia: 'O PT quer votar com você. A gente faz tudo, não faça isso'. O [deputado] André Moura [PSC-SE] estava com Jaques Wagner na outra linha dizendo que ele estava insistindo para falar, e eu disse não falaria com ele.

Por que você não quis atender?

Porque já estava decidido. Não aceitei ser comprado com o voto do PT.

E se o governo não tivesse rompido com você?

Eu que rompi com o governo em 17 de julho. Quem rompeu com o governo fui eu. Eles tentaram várias vezes fazer acordo, várias vezes. Eles não tentaram só esse tipo de acordo.

Que outros?

A presidente, no dia em que eu estive com ela, em 1º de setembro, fui para uma audiência que ela convocou para falar de medidas e sei lá o quê. Ela disse que tinha cinco ministros do Supremo para poder me ajudar.

Ela disse isso? Em que contexto?

Disse isso. Ela não disse os nomes nem ajudar no que. Eu simplesmente ignorei. Teve uma outra oportunidade em que o governador [do Rio de Janeiro Luiz Fernando] Pezão, numa segunda-feira que eu estava aqui em Brasília, agosto ou setembro, simplesmente me telefonou porque precisava falar comigo urgente. Ele disse: 'eu estava querendo ir almoçar com o Michel no Jaburu'. Eu disse: 'Pezão, quer me encontrar lá?'. E ele foi. Chegando lá, pedi licença ao Michel eu fui para uma sala sozinho com ele, que veio com a mesma história de que ela tinha cinco ministros do Supremo para me ajudar.

Ajudar a te livrar [da denúncia na Lava Jato]?

Ajudar, mas não disse em quê.

Por que você não aceitou? Não denunciou?

Não é questão de aceitar. Eu não acredito nessas coisas. Eu não acredito que alguém possa ter cinco ministros do Supremo sob seu controle. Não existe isso, eu respeito a Suprema Corte e não entendo isso. Eu entendo isso como uma, digamos assim, como uma bravata. Concretamente, ela não disse o que ia fazer.

Acha mesmo que hoje alguém é capaz de influenciar a Lava Jato?

Não. Acho que tem seletividade. Me escolheram. Estão chegando a tal ponto que querem abrir inquérito contra pessoas que acham que são minhas aliadas. Chegaram nesse nível. O procurador-geral [da República Rodrigo Janot] resolveu me escolher como inimigo.

Para a Lava Jato, um de seus erros foi falar demais, dar versões diferentes sobre o requerimento apresentado ...

Eu não falei nada. Eu tenho a prova de que o requerimento não foi feito no meu gabinete. Simples assim. Eu tenho a estação do computador que foi feito o requerimento. Isso tem prova técnica.

Isso foi feito onde?

Foi feito na Comissão de Constituição e Justiça. Eu digo a você. Quanto a isso, eu estou absolutamente tranquilo. O que estão fazendo, invadindo a prerrogativa do trabalho do parlamentar, é absurdo. Achar que o parlamentar não pode fazer o requerimento ou deixar de fazer. A ex-deputada Solange está sendo penalizada apenas para poder me atingir.

Está dizendo que o Ministério Público está com poder excessivo?

Tem que separar muito bem. Falo do procurador-geral da República, não da instituição, que tem de fazer o papel dela. Quando você pega decisão do meu afastamento, quase tudo é matéria jornalística.

O sr. vê diferença de tratamento com o presidente do Senado?

Eu deixo para vocês a conclusão. Instauraram um inquérito contra mim em março. A denúncia foi promovida sem concluir o inquérito com as oitivas que estavam programadas para serem feitas. Pedi adiamento de uma semana para dar tempo de o meu advogado distribuir memoriais e porque não estava completo o quórum daquele dia, um ministro [do STF] estava no exterior. Já um outro caso de três anos atrás foi apresentado e não teve pauta.

Eu não tenho nada contra, não estou acusando ninguém, mas existe uma diferença [em relação a Renan], não há dúvida nenhuma que houve uma diferença. Só estou discutindo a celeridade em relação ao meu caso.

Qual sua relação com Lúcio Bolonha Funaro? Ele comprou carros para sua empresa

Eu não tive compra, eu tive mútuo. Totalmente colocado na contabilidade. Eles já quebraram o sigilo, têm a contabilidade. É que matéria probatória não é analisada nessa etapa inicial.

Teme ser preso?

Com muita sinceridade, eu estou muito tranquilo. Não posso temer nada, porque quem não faz nada não tem o que temer. Acho que as instituições têm que acabar funcionando para proteger os direitos.

Funcionaram até agora?

A novela inteira não passou, só capítulos.

E quando acaba?

Ah, é uma novela longa!

E a tese de que réu não pode presidir a Câmara dos Deputados?

O artigo 86 da Constituição é muito claro. Não posso ser processado por atos estranhos às minhas funções. E eles teriam de colocar prazo no meu afastamento, limitando-o a igual período da presidente da República, 180 dias. O terceiro agravante que existe é o que trata exclusivamente de quem está na função de presidente da República.

Pergunto o seguinte: se hoje eu, réu de uma ação penal, resolvo ser candidato a presidente da República e, se o partido me der legenda, conseguiria registrar a minha candidatura? Registro. Não está no ficha limpa. No ficha limpa, só processos transitados em julgado em segunda instância. Se eu posso ser candidato a presidente da República, por que eu não posso exercê-la?

O sr. acha que o retoma o mandato?

Acho que retorno. Nós vamos produzir recursos, vamos conseguir convencer o Supremo.

Foi um erro capital de Dilma colocar um candidato para enfrentá-lo para a presidência da Câmara?

Esse governo é mais ou menos um avião quando cai. Não cai por um motivo só. O piloto está num mal dia, passa mal, tem falha mecânica, falha de planejamento, a comunicação com as torres está errada.

O governo errou na campanha eleitoral. Ganhou com um discurso fraudulento. A presidente mentiu à nação, ganhou sem hegemonia eleitoral e com uma base partidária em frangalhos. Ainda por cima, eles tinham uns gênios da articulação politica. Tentaram dar um tchau, PMDB. Aquilo foi apenas uma etapa, não é razão.

Se você fizer uma análise fria, os votos que o candidato do PT teve contra mim foram os votos para evitar o impeachment. Ela não agregou nada. Uma articulação política "organizações tabajara". Eu me lembro muito bem de uma frase: as duas coisas orgânicas que existiam no Congresso eles estavam querendo jogar fora –o PMDB e a CNB [corrente majoritária] do PT. Ela errou na escolha do ministro da Fazenda, ou escolheu direito e o enfraqueceu na própria ação. Ela teve oportunidades para poder dar uma resposta e ter mudado. Porque, quando a economia vai bem, tudo vai bem. Quando a economia vai mal, todo o resto acaba indo mal.

Se o sr. não existisse, não haveria o impeachment.

Aí, minha querida, Deus que me colocou lá.

Deus queria o impeachment de Dilma?

Não sei, nada acontece se não for pela vontade de Deus.

Foi abandonado por Michel Temer desde seu afastamento?

Eu estive com ele já, tenho falado com ele quase constantemente, não tenho nenhum problema. Não há o que cobrar. Cobrar o quê? Você tem uma situação inusitada, porque a decisão não foi dele, não foi ele que agiu pra isso. Eu estou sofrendo muito mais uma ação orquestrada dos adversários desse processo de impeachment do que necessariamente dos fatos que acontecem.

O grupo de Temer acha que sua saída descontamina a imagem dele.

Tem sempre as fofocas e aqueles que querem ocupar os espaços que porventura acham que vai ter concorrente. Não é a visão do Michel. Não tenho sinal nenhum em relação a isso.

O sr. cobrou que Temer cumprisse acordos firmados antes da votação do impeachment.

Não só eu, eles cobraram mesmo. O Michel conversava com os partidos, não só eu falava, não. Eu participei de muitas conversas e de muitos debates, não é que cobrei, eu não preciso cobrar o Michel pra ele cumprir os acordos. Ele sabe os acordos que ele tem que fazer ou não pra ter sua base política.

Ele descumpriu vários.

Mas aí quem teve o acordo descumprido que reclame com ele, não sou eu. Se é que aconteceu isso.

Acha correto oferecer cargo pra votar no impeachment?

Ele não ofereceu cargo pra votar no impeachment. Quem ofereceu pra votar contra o impeachment foi a presidente da República.

Temer também.

Não, com Michel foi outra coisa.

Agora ele é cobrado a pagar a conta...

Ele está sendo cobrado da participação dos partidos que desprezaram as ofertas fisiológicas e optaram pela solução de resolver o problema do país.

Não é mais justo dizer que recusaram as ofertas fisiológicas de Dilma e aceitaram as ofertas fisiológicas de Temer?

Não, até porque o Michel não tinha o que ofertar. Quem tinha a caneta, quem publicava os Diários Oficiais gordos com nomeações e demissões era a Dilma, não o Michel.

Se o sr. tivesse diante da Dilma agora, o que diria a ela?

Tchau, querida [risos].

O grupo de Temer o vê por trás da anulação do impeachment por Waldir Maranhão.

Isso é brincadeira, só pode ser uma piada. Eu não teria conduzido esse processo do jeito que conduzi para chegar ao fim e fazer uma lambança dessa natureza. O que o ministro da Justiça, o governador do Maranhão e a presidente da República fizeram é obstrução à Justiça. Só isso já valeria um pedido de impeachment. Se chegasse nas minhas mãos um pedido com essa argumentação, eu abriria.

Maranhão agiu junto, merece o impeachment?

Não cabe. Ele está no exercício do mandato, tem o poder de conceder decisões. Posso discordar, achar que é absurda, antirregimental, irresponsável, mas ele tem o poder.

Sua renúncia forçaria uma eleição nova na presidência. Se o Waldir Maranhão estiver atrapalhando o governo de Temer...

Eu não vou renunciar.

Ainda que ajude Temer?

Não está em jogo eu renunciar para poder facilitar ou dificultar quem quer que seja. Eu estou no meu direito, eu fui eleito. Eu vou exercer minha defesa. A Constituição só prevê uma medida cautelar para parlamentar: a prisão em flagrante, que precisa ser submetida ao plenário da Casa. Para o afastamento, o STF aplicou isonomia. Delcídio foi preso em flagrante e não foi suspenso seu mandato. Uma suspensão sem prazo. Até quando, por que motivo? É uma cassação branca do meu mandato! Do mandato de deputado. Estou sofrendo uma cassação branca.

Incomoda ter sido afastado antes de Dilma?

Não estou fazendo competição de afastamento.

Não foi alertado de que, se prosseguisse com o impeachment, seria o próximo a cair?

Não tenho dúvida nenhuma de que, quando você parte pra esse tipo de enfrentamento, a gente acaba prejudicando. Recebi ameaças de morte. Mas se há uma coisa que não tenho na política é medo. Faço o que considero correto. Eu sabia, tinha absoluta convicção de que quem entra numa guerra vai tomar tiro também, isso é normal.

Aliados já decretaram sua morte política.

Não morri nem pretendo morrer. Ou não estaria aqui falando com vocês.

Como um dos mais poderosos presidentes da Câmara foi tão rápido do apogeu ao chão?

Eu cumpri 60% do meu mandato. A Dilma não chegou à metade.

Atribuem sua influência ao fato de financiar a campanha junto a empresários de mais de cem deputados.

Isso é balela! A história real eu já cansei de falar. O que eu fiz, e sempre fiz, foi ajudar o meu partido na obtenção de recursos na campanha eleitoral. De outros partidos, negativo. Só o meu partido.

O que o Michel Temer ofereceu?

Nada. Michel nunca me pediu para dar curso a processo de impeachment nem nunca me ofereceu nada.